SAÚDE E BEM ESTAR

Polilaminina: o que se sabe até agora sobre a substância que promete devolver movimentos após lesão medular

A polilaminina virou assunto nas redes sociais. De um lado, comemorações em torno do que seria uma das maiores descobertas recentes da ciência brasileira. De outro, especialistas pedindo cautela e lembrando que ainda estamos nos primeiros passos do desenvolvimento clínico.
A substância é fruto de pesquisa conduzida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob liderança da bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, e foi desenvolvida em parceria com a farmacêutica brasileira Cristália. Mas, afinal, o que já se sabe, e o que ainda não se sabe, sobre a polilaminina?

O que é a polilaminina?
A polilaminina é derivada da laminina, uma proteína naturalmente presente no organismo humano e em diversos animais. A laminina participa de processos fundamentais como adesão celular, organização dos tecidos e desenvolvimento do sistema nervoso. Segundo a pesquisadora, trata-se de uma molécula de funções primitivas, presente inclusive em organismos simples, como esponjas marinhas.
Microscopicamente, a laminina se organiza em uma rede tridimensional que sustenta células e orienta sua migração. É justamente essa capacidade de servir como “andaime biológico” que despertou o interesse da equipe da UFRJ. “Com ela, conseguimos efeito duplo: proteger os neurônios que ainda existem ali e estimular o surgimento de novas unidades”, explicou Sampaio à VEJA. 

A partir dela, foi desenvolvida a versão reorganizada em laboratório — a polilaminina — com potencial aplicação em lesões da medula espinhal.
Como a substância atuaria na lesão medular?
Para entender o tratamento, é preciso lembrar o que acontece quando a medula espinhal é lesionada. A coluna vertebral forma um canal ósseo por onde passa a medula, estrutura responsável por conectar o cérebro ao restante do corpo. Ela transmite comandos motores e leva de volta informações sensoriais, como dor, temperatura e tato.

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Quando ocorre uma lesão, os axônios, os “fios” dos neurônios, se rompem. O próprio organismo reage formando uma cicatriz no local, criando um ambiente hostil à reconexão neural. A partir disso, a comunicação entre cérebro e corpo é interrompida.
A polilaminina é aplicada diretamente na área lesionada durante a cirurgia. No local, ela formaria uma espécie de “ponte microscópica”, funcionando como estrutura de suporte para orientar o crescimento dos prolongamentos neuronais através da área danificada. Em teoria, isso poderia facilitar a criação de novas rotas neurais e permitir algum grau de recuperação motora.
Os dados divulgados até agora, provenientes de experimentos laboratoriais, estudos em animais e pequenos grupos de pacientes, sugerem que esse mecanismo pode favorecer recuperação parcial em casos de lesão medular aguda.
O que mostram os casos já tratados?
Desde 2018, a substância vem sendo testada de forma experimental em seis pacientes com lesões medulares classificadas como nível A, quadro em que há perda completa da função motora.

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Segundo os dados divulgados pela equipe, em setembro do ano passado, cinco desses pacientes teriam evoluído para nível C, categoria que inclui recuperação parcial de força e mobilidade.
Um dos casos mais divulgados é o de Bruno Freitas, que sofreu um acidente de trânsito aos 23 anos, fraturou a coluna e ficou tetraplégico. Ele recebeu a aplicação da polilaminina nas primeiras 24 horas após o trauma. Ao longo de um ano, passou a apresentar retorno progressivo dos movimentos, inicialmente com a mobilização do dedão do pé e, posteriormente, com recuperação mais ampla. Atualmente, caminha e movimenta os braços sem limitações.
O que a Anvisa autorizou – e o que isso significa
Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início de um estudo clínico de fase 1 para avaliar a segurança da polilaminina.
Nesta etapa:

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Serão incluídos cinco pacientes, entre 18 e 72 anos
Todos devem apresentar lesão medular torácica aguda completa (entre T2 e T10), ocorrida há menos de 72 horas
A aplicação será única e intramedular, durante procedimento cirúrgico
Será utilizada uma solução injetável de laminina extraída da placenta humana

O foco da fase 1 é exclusivamente segurança. Nesse caso, há monitoramento de eventos adversos, desde reações leves até complicações graves ou inesperadas. Entre os riscos que exigem atenção especial está a eventual produção de anticorpos contra a polilaminina, uma resposta imunológica que pode ocorrer quando o organismo reconhece a substância como estranha.
Em comunicado, a Anvisa reforçou que o estudo atual não permite concluir sobre eficácia. Apenas após a conclusão dessa etapa, e caso os resultados sejam satisfatórios, o medicamento poderá avançar para fases posteriores, que envolvem maior número de pacientes e avaliação formal de benefício clínico.
No total, o desenvolvimento completo de um medicamento envolve 5 fases, um processo que costuma levar anos.

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Por que especialistas pedem cautela?
Embora os relatos sejam animadores, parte da comunidade científica ressalta limitações importantes. O nutricionista Igor Eckert, que atua com práticas baseadas em evidências, destacou que é indiscutível que alguns pacientes melhoraram após receber a polilaminina. A discussão, segundo ele, é se a melhora pode ser atribuída diretamente à substância.
Um ponto central é que a lesão medular não é necessariamente estática. A literatura mostra que parte dos pacientes classificados inicialmente como nível A pode evoluir espontaneamente para níveis com algum grau de recuperação motora. Estimativas apontam que até 40% podem converter de A para C ao longo do tempo.
Isso significa que a aplicação ocorre em um momento de incerteza clínica, especialmente nas primeiras horas após o trauma, quando ainda pode haver dificuldade para definir o grau real de comprometimento funcional.
Além disso, até o momento não há ensaios clínicos randomizados, controlados e revisados por pares que permitam estabelecer nexo causal robusto entre o uso da polilaminina e a recuperação observada. É aí que entra a atuação da Anvisa.

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A questão da patente
Em entrevista ao canal Brasil 247, Sampaio afirmou que detinha a patente nacional da substância, mas perdeu a patente internacional em razão de cortes de verbas federais entre 2015 e 2016. Segundo ela, chegou a arcar pessoalmente com custos para manter o registro nacional à época.
Atualmente, o laboratório Cristália detém a patente do processo de formulação. A patente internacional, no entanto, teria sido definitivamente perdida.

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