SAÚDE E BEM ESTAR

Autismo em idosos: uma ‘descoberta’ que impõe novos olhares e desafios

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O autismo, antes associado só à infância, está sendo cada vez mais diagnosticado em idosos. Muitos brasileiros 60+ descobrem o TEA tardiamente, muitas vezes ao verem os sinais em netos. É crucial um olhar clínico especializado para não confundir com outras doenças do envelhecimento e garantir o suporte adequado, promovendo dignidade e bem-estar.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

O transtorno do espectro autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento cujos sinais se manifestam precocemente e acompanham a pessoa por toda a vida. No entanto, durante décadas, o TEA foi compreendido sob uma ideia restrita à infância. Esse estigma fez com que gerações atravessassem a vida adulta e chegassem à longevidade sem compreender as raízes de suas próprias experiências sensoriais, sociais e cognitivas.
Dados da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) revelam que mais de 300 mil brasileiros com 60 anos ou mais se autodeclaram dentro do espectro, uma prevalência de 0,86% nessa faixa etária. Esse número não representa um aumento repentino de casos, mas o reconhecimento tardio da condição. Impulsionado pelo maior acesso à informação, muitos idosos estão, finalmente, nomeando características que, no passado, eram rotuladas apenas como “excentricidade”, “timidez excessiva” ou “dificuldade de convivência”.

É comum que o despertar para o diagnóstico na maturidade ocorra de forma indireta, a partir da percepção de características em filhos ou netos e do maior contato com informações sobre o tema. Ao reconhecer nesses descendentes tais comportamentos, formas de comunicação e modos de perceber o mundo, a pessoa em processo de envelhecimento revisita a própria biografia, identificando padrões e desafios que antes não tinham nome.

Crescer sem o suporte adequado significou, para muitos, uma vida lidando com o esforço exaustivo de disfarçar comportamentos sociais considerados “atípicos” para conseguir se ajustar ao mundo.
O envelhecimento no TEA exige um olhar clínico apurado, pois os sinais podem ser facilmente confundidos com quadros depressivos, demência ou isolamento social frequentemente associado à terceira idade. Sintomas como hipersensibilidade sensorial, estresse diante de mudanças na rotina e interesses muito restritos precisam ser avaliados sob a luz do neurodesenvolvimento, e não apenas como sinais de senescência .

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Por isso, uma avaliação neuropsicológica é fundamental para interpretar esses quadros. Ela deve contemplar: entrevista realizada por profissional especializado; observação comportamental; interpretação de diferentes escalas de avaliação de sintomas; aplicação de diversos testes neuropsicológicos padronizados; e devolutiva (repasse dos resultados para pacientes e familiares) e acompanhamento.
Mais do que rotular, a avaliação neuropsicológica busca compreender o perfil cognitivo da pessoa, analisando funções como atenção, memória, linguagem e funções motoras.
Essa investigação permite diferenciar o que é inerente ao espectro do que pode ser uma comorbidade ou declínio cognitivo. Esse mapeamento preciso é o que possibilita o planejamento de estratégias terapêuticas alinhadas às necessidades reais dessa fase da vida, promovendo autonomia e bem-estar emocional.

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Reconhecer o TEA na velhice é um compromisso com a dignidade. O diagnóstico tardio oferece a oportunidade de ressignificar décadas de barreiras enfrentadas silenciosamente. Ele permite que o sistema de saúde e a rede de apoio ofereçam um cuidado integral e políticas públicas sensíveis às particularidades dessa população.
Envelhecer no espectro não deve ser sinônimo de isolamento, mas sim de uma nova compreensão sobre si mesmo. Afinal, o direito à saúde e ao autoconhecimento não tem data de validade; ele deve ser garantido ao longo de toda a vida.
* Danielle Christofolli é médica especialista em neurologia pediátrica e responsável técnica e gerente do Centro de Neurodesenvolvimento e Reabilitação (CNR) do Instituto Jô Clemente (IJC)
 

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