MÉRCIA FANHEIRO: Melhor estudante de Engenharia vende batata e cebola no mercado
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TEXTO DE GENÉZIA GERMANO
Aos 32 anos, mãe de dois filhos e licenciada em Engenharia Eléctrica, Mércia Fanheiro ocupa hoje uma esquina no bairro Patrice Lumumba, onde vende batata e cebola para garantir o sustento da família.
À primeira vista, a actividade pouco revela o percurso académico que carrega, mas por detrás da banca improvisada existe uma história marcada por empenho, entrega e persistência. Mércia concluiu a licenciatura em Engenharia Eléctrica na Universidade Politécnica, depois de uma tentativa falhada de formação em Meteorologia na Universidade Eduardo Mondlane.
A jovem explica que abandonou o primeiro curso devido a entraves administrativos. “Fui para lá para tentar terminar o curso, mas era muita burocracia. Na tentativa de recuperar o meu processo, acabaram por perder os meus documentos, e eu desisti”, relata.
A solução passou por procurar uma instituição privada, onde concluiu a formação em 2025. O esforço académico trouxe-lhe reconhecimento. Mércia foi considerada a melhor estudante do curso e recebeu um prémio monetário de uma agência de viagens, que anteriormente oferecia deslocações a Joanesburgo aos melhores estudantes.
“Eles decidiram passar a dar o prémio em dinheiro, porque os estudantes reclamavam da falta de apoio para alojamento e alimentação. Foi assim que recebi o cheque”, conta.
A defesa do trabalho final coincidiu com um período sensível no país, marcado por restrições de circulação. Ainda assim, Mércia não faltou ao compromisso académico. “Defendi num dos dias em que foi declarado que ninguém deveria sair de casa a partir das sete. Saí de casa às cinco da manhã para chegar à cidade e defender o meu trabalho final”, recorda.
EMPREENDER PARA NÃO SUCUMBIR
Concluída a licenciatura, a expectativa de integração no mercado formal deu lugar à frustração. Mércia afirma que a ausência de oportunidades a empurrou para o pequeno comércio. “Comecei a empreender depois de defender, porque o mundo do emprego está sempre com portas fechadas. Na vida, temos de procurar outras oportunidades”, declara.
A decisão de vender produtos alimentares surgiu como uma forma de ocupar a mente e evitar o desgaste emocional provocado pelo desemprego prolongado. “É frustrante estudar e acordar todos os dias sem nada para fazer. Ficamos sentados, a pensar ‘estudei para quê?’”, afirma.
Para Mércia, manter-se activa representou uma questão de sobrevivência psicológica. “Para não cairmos em situações piores, procuramos algo para ocupar a mente”, acrescenta. Com um pequeno financiamento, iniciou o negócio na esquina onde trabalha actualmente. Reconhece que o rendimento é limitado e que o ambiente comercial é competitivo. “Num país onde toda a gente vende, quem deveria comprar também é comerciante. Um dia não compram, outro compram”, observa, sublinhando que a persistência se impõe como regra. “O importante é levantar a cabeça e ter fé de que as coisas vão dar certo”.
O espírito empreendedor não lhe é estranho. Mércia cresceu numa família de classe baixa, onde o negócio sempre garantiu a sobrevivência. “Os meus pais eram negociantes. Vendiam doces e pipocas, depois passaram para produtos alimentares. Foi assim que pagaram a minha escola”, recorda. Mais tarde, o pai conseguiu emprego, o que melhorou as condições de vida da família.
Apesar disso, Mércia admite que nunca se imaginou no comércio. “Nunca foi o meu forte, mas a falta de emprego obriga- -nos a reinventarmo-nos”. Olhando para o futuro, a engenheira traça um objectivo alinhado com a sua formação. “Se um dia conseguir abrir uma electroferagem, estarei a trabalhar, de certa forma, na área em que estudei”, afirma.
O projecto inclui a venda de material eléctrico, prestação de serviços de instalação e, eventualmente, fornecimento a grandes edifícios. “Mesmo que não seja numa grande empresa, estarei a empregar outras pessoas e a contribuir”, acrescenta. Mércia defende maior valorização das mulheres nas áreas técnicas. “Num país como este, devia valorizar-se muito a mulher que faz um curso de Engenharia, porque é um desafio”, sustenta. Inspirada pelas tias, formadas em Engenharia Industrial e Electrónica, encontrou nelas um exemplo de superação num sector dominado por homens. Apesar de sonhar, em criança, com a Medicina, acabou por seguir outro caminho devido ao receio de lidar com sangue e acidentes.
As ciências exactas tornaram-se o seu refúgio natural. “Sempre tive inclinação para Matemática, Física e Química. Não havia nada em Química que eu não entendesse”, afirma.
Hoje, entre a banca de venda e o diploma guardado, Mércia Fanheiro representa muitos jovens moçambicanos que, apesar da formação académica, enfrentam a realidade dura do mercado de emprego. “Nem tudo o que sonhamos realizamos. Se um dia aparecer um emprego digno, vou agradecer”, conclui.









