CIÊNCIA

A chef pernambucana com experiência em restaurantes estrelados que brilha no Porto

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Na carta do Soma Café & Cozinha, na Cedofeita, no Porto, a brasilidade já estava presente na carta. Afinal, a casa é obra da jovem dupla brasileira formada por Mona Karenina e Luiza de Almeida. Mas foi com um reforço de peso que o diálogo gastronômico entre Brasil e Portugal ganhou ainda mais força: a pernambucana Mirna Gomes.Para acompanhar os cafés especiais escolhidos a dedo por Luiza, o pão de queijo da Ilha de São Miguel e a shakshuka que leva molho de moqueca em lugar do tradicional tomate, já marcavam presença. Fruto do trabalho inicial do chef Yevgeny Alinichenko, companheiro de Mona e que, por conta disso, já transitava pelos sabores brasileiros.Agora, no entanto, o passeio pelos nossos ingredientes vai ainda mais longe ao jantar. Um dos queridinhos criados por Mirna, sucesso absoluto na carta, é o Crudo de Lírio com Aguachille de Maracujá, Óleo de Coentros, Alface do Mar e Bolo Frito de Mandioca. “A ideia foi manter a identidade do Soma, sem me afastar da minha identidade. Então trabalhamos o produto daqui, mas com um toque de Brasil em um prato ou outro. A gente caminha junto há pelo menos 500 anos, né?”, reforça Mirna.O cardápio também tem Robalo com Molho de Caldeirada Pernambucana, Salada de Ameixa e Farofa de Chalota. Outra, literalmente, doce atração é a Tarte de Queijo servida com calda de goiabada. “Hoje, podemos trabalhar os ingredientes brasileiros em sintonia com os portugueses, porque muita gente está trazendo para cá. É um lindo e rico diálogo”, diz a chef.Outro ponto que faz Mirna sentir-se em casa é o espírito colaborativo que as meninas implementaram na casa. “Luiza faz o serviço de dia, Mona à noite. A Mona também é fundamental no aspecto estético dos pratos e em algumas criações, como a manteiga de cupuaçu. E a Luiza é a pessoa que comanda a cena do café”, reforça. Por falar nisso, tem café novo na carta: um Catuaí Amarelo da Chapada dos Veadeiros.O destaque no projeto é o papel das mulheres. “Ainda há um longo percurso das mulheres na cena da gastronomia. Vamos nos fortalecendo, quebrando barreiras e mostrando a que viemos, como mulheres e imigrantes”, acredita Mirna.


A chef Mirna Gomes juntou-se à equipe do Soma em agosto
Mona Karenina/divulgação

PercursoA história de Mirna na gastronomia começou de uma maneira inusitada. Como massoterapeuta em Fernando de Noronha, calhou de ter a chef Bel Coelho (Cuia e Clandestina, em São Paulo) entre suas clientes. E foi justamente a renomada brasileira quem incentivou a transição de carreira, quando Mirna se casou e passou a viver em São Paulo.O sonho inicial era ter uma pousada em meio à natureza, com comida vinda dos arredores e uma pegada bem natural. “A Bel falou muito do diálogo entre o meu trabalho de massoterapeuta e a cozinha, ambas focadas na sensorialidade e no bem-estar. Foi uma grande incentivadora”, lembra.Foi então que partiu para os bancos acadêmicos – ou melhor, bancadas, do Curso de Gastronomia do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas, a FMU. Apesar de ter se questionado por começar com mais de 30 anos, Mirna acha que a maturidade lhe favoreceu. “Foi ali que conheci pessoas como a Cintia Holand, que sabe tudo e mais um pouco sobre alimentação. No final da primeira aula, disse a ela: posso nem virar chef, nem ter pousada. Mas uma coisa é certa: nunca vou parar de estudar e aprender”, recorda. E assim o tem feito, por sinal.Para além da construção de repertório, Mirna aproveitava para explorar a efervescência do bairro da Liberdade, em um período que a gastronomia asiática da região da faculdade ganhou boa companhia. “Peguei uma época da abertura de muitos restaurantes africanos e viver de perto toda essa efervescência cultural foi um aprendizado”.Em paralelo às aulas e os passeios gastronômicos, vieram os estágios. Foi Bel Coelho que também deu a Mirna o seu primeiro estágio no Dui e, depois, abriu passagem para um estágio em outra referência da cozinha brasileira, o Maní, de Helena Rizzo, para onde ela voltaria mais tarde, já como profissional.No Brasil, ela passou ainda pelo Clos, do chef Juca Duarte, antes de partir para a sua primeira experiência no exterior, no aclamado El Celler de Can Roca, com três estrelas Michelin, comandado pelos irmãos Joan, Jordi e Josef Roca, onde Bel já estagiara e tinha abertura. “Ganhei muito como profissional e como pessoa nesta experiência. Foi um divisor de águas, que abriu a minha mente e me apresentou uma das mulheres que mais admiro na minha vida, a Monse Roca, mãe do trio que comanda o restaurante”.No meio do caminho, ainda teve o que Mirna considera como um ato movido por impulso, mas que a tornou conhecida em todo o Brasil: a participação no Masterchef Profissionais de 2018. “O programa me abriu muitas portas e oportunidades. Foi dali que surgiu a proposta para vir para Portugal, que me atraiu também pelo Mestrado de Gastronomia da Universidade de Coimbra”, relembra.


Crudo de lírio, aguachille de maracujá, óleo de coentros, alface do mar e bolo frito de mandioca, um prato criado pela Chef Mirna Gomes
Mona Karenina/divulgação

Esse sonho, no entanto, ficou em suspenso por ora. Nesse meio tempo, a chef foi deixando a sua marca pela passagem em alguns restaurantes portugueses, entre eles o Toasted (encerrado na altura da pandemia), o Mito – onde ficou por três anos –, o Venga, o Bistrô Severo, do chef Tiago Bonito, e o Oficina. “Foi e vem sendo um aprendizado contínuo. A cozinha portuguesa é muito rica e com ingredientes incríveis e muita gente disposta a ensinar e mostrar o que existe aqui. Aos poucos, vamos colocando a nossa brasilidade aqui e ali e fortalecendo a cena gastronômica”, diz.Nessa linha de pensamento, é impossível não voltar ao nome de Bel Coelho, que continua a ser uma fonte de aprendizado para Mirna. “Ela sempre fala que é importante se aproximar do lugar em que se está para poder entender de onde se vem e respeitar o que as pessoas fazem. Eu acho que é o tipo de filosofia que é importante vir carregando, sabe?”
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