DESPORTO

Quando a rua rouba a humanidade

Há momentos que expõem, de forma cruel, o quanto falhamos enquanto país com quem vive na rua. Nos últimos meses vimos dois episódios diferentes que deixam à mostra a mesma ferida: os sem-abrigo continuam a ser o alvo preferencial de quem quer exercer poder sobre alguém que não tem maneira de se defender. E, para piorar, até quem lhes estende a mão acaba por ser atacado.Num caso, dois agentes da PSP foram detidos por suspeitas de tortura dentro de uma esquadra. Não vale a pena enfeitar palavras. As acusações falam de agressões, humilhações e violência sexual contra homens que estavam completamente indefesos. O que interessa aqui não são as notas oficiais a tentar conter danos; o que importa é que isto aconteceu num espaço que pertence ao Estado, realizado por pessoas que representam o Estado, contra seres humanos que já tinham perdido quase tudo. E só é possível porque há vidas que, aos olhos de muitos, simplesmente não pesam.No Porto, noutro extremo desta mesma realidade, voluntárias que distribuíam comida foram atacadas por neonazis. Não contentes em insultar e empurrar, acusaram-nas de ajudar quem “não merece”, como se alimentar pessoas fosse algum tipo de afronta aos valores “nacionalistas”. O que assusta não é apenas o ataque, é perceber que estes grupos já se sentem à vontade para agir assim em plena rua, contra mulheres, no meio de uma acção solidária. E fazem-no porque sentem que houve sectores da sociedade que lhes deram margem.Estes dois episódios não têm relação directa nem partilham protagonistas. Mas mostram um padrão que anda a ser empurrado para o lado há demasiado tempo. Quem vive na rua é sempre o fácil bode expiatório para a violência: seja a de extremistas que se alimentam do ódio, seja de alguns criminosos que vestem farda e falham redondamente.


O Estado falhou — na formação, na supervisão, na capacidade de garantir que quem veste uma farda sabe o que isso significa. Trata-se simplesmente de exigir que a autoridade pública esteja ao lado de quem precisa dela, e nunca no lugar de quem agride. O Estado falha ainda mais quando não criminaliza nem julga os grupos neonazis que violam todo e qualquer princípio constitucional.É por isso que estes episódios não podem ser discutidos como se vivessem em caixas separadas. Não é para os misturar, é para perceber o que eles dizem do país em que esta gente nos quer tornar: uma sociedade que empurra os sem-abrigo para fora de tudo, como se fossem um grupo à parte, entregue à sorte, à violência e à indiferença de quem acha que o problema é ajudar em vez de olhar para o que leva alguém a dormir na rua.Pessoas em situação de sem-abrigo não têm voz, não têm poder, não vivem com plenos direitos democráticos. Vivem num limbo onde tudo lhes pode acontecer. E quando até voluntários começam a ser atacados, fica evidente que até a solidariedade se tornou um alvo a abater para os sectores reaccionários da nossa sociedade.Se o Estado quer realmente fazer algo a sério, tem de agir nos dois lados: afastar e responsabilizar quem abusa do poder dentro das instituições e, ao mesmo tempo, enfrentar sem hesitações a violência extremista que se começa a sentir à vontade.Enquanto os cidadãos que vivem na rua forem tratados assim, a violência vai continuar a cair sobre eles. E sobre quem tenta protegê-los. A dignidade não pode depender do sítio onde se dorme, nem das circunstâncias que empurraram alguém para essa situação. Se aceitarmos que há pessoas que podem ser deixadas para trás, estamos a encolher o país para todos.Chegou o momento de parar de varrer isto para debaixo do tapete. Estes episódios não aparecem do nada — nascem da indiferença que se instalou acompanhada de uma visão política baseada na indiferença que promove o ódio. E enquanto a indiferença mandar, a violência não parará de crescer. Temos o dever cívico de exigir um ponto final a estes ultrajes, sob pena de se normalizarem e, aí, ser tarde demais.

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