Polícia que explora imigrantes: quando o Estado falha pelas mãos de quem o representa
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A operação da Polícia Judiciária (PJ) que levou à detenção de 10 militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) e um agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) — suspeitos de crimes que vão do auxílio à imigração ilegal à falsificação, fraude fiscal e lavagem de dinheiro — volta a expor uma fragilidade estrutural: a incapacidade do Estado de impedir que alguns dos seus próprios representantes transformem a autoridade pública num instrumento de abuso.Um agente do Estado nunca age sozinho. Cada abordagem ou fiscalização é percebida pelos cidadãos como a própria mão do Estado em ação. Juridicamente dizemos que o papel do agente público é atuar como a “longa manus” estatal, ou seja, como uma extensão dos poderes do próprio Estado.Por isso, existe um dever essencial: agir quando a lei manda, mas agir sempre dentro da lei. A omissão indevida fragiliza, mas a ação ilegal contamina — porque utiliza o poder público, que não pertence ao indivíduo, para violar direitos e distorcer regras.A gravidade aumenta quando as vítimas são imigrantes, frequentemente em maior vulnerabilidade. Mas é fundamental afirmar o óbvio: o fato de as vítimas serem imigrantes não torna o crime menos grave para os portugueses. Pelo contrário. Quando toleramos desvios contra alguns, damos elasticidade ética aos agentes do Estado e abrimos espaço para que amanhã os abusos atinjam muitos mais. Hoje, são imigrantes; amanhã, podem ser cidadãos nacionais. A indiferença social e a inação estatal é sempre um risco democrático.Por isso, as investigações criminais são indispensáveis, mas insuficientes. É preciso avançar também com processos disciplinares rigorosos, transparentes e livres de corporativismos. Silêncios estratégicos ou proteções internas não defendem instituições — apenas alimentam a percepção de impunidade e afastam a sociedade.Casos como este testam a maturidade das instituições. A autoridade do Estado não se mede apenas pelo poder que exerce, mas pela forma como responde aos seus próprios desvios. Sem firmeza, transparência e responsabilização, o Estado perde algo mais profundo do que credibilidade: perde o vínculo de confiança com aqueles que existe para servir.
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