DESPORTO

Ecos de Ovar

A primeira crónica da 4.ª edição da Road Trip Literária – Ler é o Melhor Caminho é diferente de todas as das edições anteriores: não é sobre uma biblioteca, como aconteceu com as outras 50. É sobre os textos que resultaram da oficina “Estufa de Crónicas – Escrever sobre a Minha Terra”, que conduzi em Ovar.Depois de um passeio por locais emblemáticos, os participantes no evento escreveram uma crónica. Selecionei alguns trechos de quatro, que costurei nesta. Uma crónica escrita a dez mãos. Integro-a na Road Trip Literária por entender que encaixa no conceito ampliado do projeto, explicado na premissa no final da crónica.“Infinitos tons de cinzento.” A frase da crónica antiga, que li em voz alta, inspirou Micaela.“É o título certo para o que trago dentro: esta dor muda. Esta ausência que se instalou sem pedir licença. Sinto-me como a planta que fotografei na Praia da Azureira. Cresceu onde não se esperava, sem solo certo ou água à vista. Sem cenário favorável, também eu fui ficando a tentar compreender um fim que não escolhi. Lido com a ausência como quem aprende a respirar de outra maneira. O amor acaba de formas diferentes para cada um. Para mim, não foi leve, nem suave. Foi abrupto. Foi dor. Foi sofrimento. Foi despedida. E nesse silêncio inesperado ficou tudo por dizer. Mesmo assim, cresço. Sou aquela planta, persisto nesta existência entre as frestas do que parecia impossível. Silenciosamente.”Assumir o sofrimento e, ao mesmo tempo, afirmar a vida. Persistir, apesar do vazio e do silêncio. A tristeza não é só ruína. É também aprendizagem.“Há um sentir novo. Mais do que isso: há vontade de me encontrar. Vontade de não continuar a viver numa história que não é mais a minha, só por ser bonita ou longa. Foram 17 anos. Não quero mentir-te, nem me mentir”, diz-nos Isabel, em “Fachadas de Ovar”.“Foi assim, com frases verdadeiras e um coração inquieto, que tudo se disse em poucas palavras. O mar da Praia de Maceda assistiu em silêncio àquele instante de coragem. Foi aí que, algum tempo depois, comecei a ler A arte de Viver, de Thich Nhat Hanh. O livro fala-nos da coragem de sermos fiéis ao que sentimos. E de abandonar o que já não somos. Relembra-nos que viver não é sobreviver.Centro histórico de Ovar: fachadas de azulejos com cores quentes e padrões cheios de história. Nenhuma fachada é igual à outra. Paletas de cores. Casas que são espelhos. Azulejos feitos de areia, fogo e tempo, espelhos do que somos. Construções exteriores que escondem mundos interiores. Percebe-se o cuidado da cidade com o tempo. As fachadas não são fingimento, mas celebrações, a face bonita de uma história vivida por dentro.”


Pormenor de uma fachada em Ovar e dos seus azulejos
Isabel Quintas

Contexto: os primeiros azulejos para fachadas portuguesas surgiram na segunda metade do século XIX. A estampilhagem tornou-se a técnica decorativa mais usada pelas fábricas na pintura dos azulejos de fachada. Para cada azulejo são necessárias tantas estampilhas quanto o número de cores a utilizar. Finalizada a decoração, o azulejo é submetido a nova cozedura.Isabel prossegue: “As fachadas de Ovar não são apenas belas. São também resistência e identidade. Paro diante de uma casa em reconstrução, sem azulejos na fachada. Uma senhora puxa um trolley. Não sei de onde vem, nem para onde vai. Imagino: dentro daquela mala leva todas as versões de si mesma. Terá sido fiel a quem sempre quis ser? Ou, como tantos de nós, terá assumido o que lhe calhou? Júlio Dinis debruçou-se sobre o desconforto entre o que se sente e aquilo que se espera que sejamos. ‘As conveniências sociais são muitas vezes a mortalha do sentimento’, escreveu em Uma Família Inglesa.Façamos das nossas fachadas, mesmo as invisíveis, um reflexo autêntico do que somos.”


Reflexões em Ovar
Micaela Cristina

Viver num lugar e visitá-lo são coisas distintas. Pode-se viver anos num local sem o visitar. Pensei nisso ao ler a crónica de Rolando: “Voltar a Ovar de chaves na mão”.“Ovar foi a primeira terra que conheci. Curiosamente, nunca a tinha visitado. Não que nunca lá tivesse ido — embora lá tenha nascido —, mas nunca o fiz na condição de visitante. Quando viajo assim, a minha curiosidade fica mais minuciosa e torno-me mais consciente da realidade.Um dia normal, nem quente, nem frio. Escola Oliveira Lopes, em Válega. Voltar a uma escola primária, 43 anos depois da primeira vez, provou ser uma experiência reveladora. Nesta escola, agora museu, há fotografias de alguns dos antigos alunos na parede. Bem penteados e sorridentes, parecem manter uma centelha de vida. Em redor, livros de ponto, apagadores, escrivaninhas de madeira, canetas de pena e quadros de giz. Esperei ouvir o toque da campainha, as risadas no recreio, as lições dos professores ou as leituras dos textos em voz alta. O tempo deixou de ser contínuo. O passado transformou-se em presente.Imagino que, cada vez que alguém aqui entra, as crianças param as suas brincadeiras no recreio, ficam em silêncio, aprumam-se e sorriem. Voltamos todos a ser crianças. Questiono-me onde estarão agora os meus parceiros de escola. Ao contrário dos rostos emoldurados, os dos meus amigos desvaneceram-se, mas a sua voz ainda é como um eco do passado.”Compreendo tão bem as palavras de Rolando. Por vezes, penso que desde que aprendi a escrever devia ter começado a anotar tudo sobre as pessoas que foram importantes para mim. Há amigos que nunca mais vi e de quem me lembro pouco. Que desperdício de recordações.“Na praia de Maceda, ouvi um homem de meia-idade falar orgulhosamente da velocidade do seu carro à vela. Dois passos ao lado, deparei-me com umas chaves penduradas numa estaca enterrada na areia. A metáfora perfeita para esta jornada que terminou no regresso à Escola Oliveira Lopes. As crianças lá estavam, sorridentes e silenciosas. Onde andarão hoje? E manterão o sorriso?”, conclui Rolando.Perguntas. As perguntas fazem andar o mundo. Ou serão as mudanças? O Filipe pergunta-se muito. É uma coisa boa. A crónica “Passado, Presente, Futuro (por Ovar)” é, toda ela, uma interrogação sobre a mudança.“O telefone tocou. Todos tinham chegado. Todos menos eu! Estou atrasado! ‘Apanhamos-te na estação. Fica a caminho.’ Enquanto esperava à frente da estação, fixei-me na tabuleta do largo: ‘Serpa Pinto, 1846–1900, político e explorador’. Quantas das pessoas que por ali passam sabem quem foi Serpa Pinto? Terá o homenageado participado na inauguração do largo? Comecei a pensar em marcos e na importância de olhar para trás e de ter provas do que foi para vermos para onde ir. Tudo tem uma origem. A evolução vem da sua alteração. Entretanto, o autocarro chegou.Visitámos as praias de Maceda, Furadouro e Azurreira (fluvial). Em Maceda, enquanto os meus colegas se dividiram pelo espaço, a investigar e a fotografar a natureza, eu olhei para tabuletas. Junto ao imenso areal, uma tabuleta interditava cães. Ao longe, um cão dava um mergulho no oceano. No Furadouro, tudo se repetiu: beleza natural, a concentração dos meus colegas, os cães, eu e as tabuletas. ‘Não pisar as dunas.’ Pedido realista. Só que uma duna tinha desabado e era agora o caminho para o areal. Mudança. Na ria, um cão arrastava os donos. Não vi tabuletas.Na rua das Pupilas do Senhor Reitor, em Ovar, uma casa tinha dois números de porta (18 e 20, creio). Mudança: duas casas passaram a uma. Os números mantiveram-se.Ao almoço, todos falámos um pouco de nós e do que fazemos. As senhoras comeram hambúrguer de alheira, os senhores, filetes de pescada com arroz de tomate e salada. A minha dose não tinha alface e menos um filete. Não disse nada, claro. Mas pensei: por que raio é que não tenho alface? E quem é que decidiu dar-me menos um filete?”Há mudanças realmente perturbadoras, Filipe.


Mural escolar
Micaela Cristina

“De regresso ao Museu Escolar Oliveira Lopes, demorei-me a observar o mural dos antigos alunos. Nas fotografias a preto e branco, os alunos estão mais sérios, mais rígidos e vestidos a preceito. Nas fotografias a cores, os alunos parecem mais despreocupados e sorriem. A fotografia passou de algo raro e solene a rotina. Mudança.No arquivo, mostraram-nos fotografias de casamentos. Dediquei-me às caixas de 1974. Queria encontrar o último casamento antes do 25 de Abril e o primeiro depois. Casar em ditadura e em liberdade. Num par de dias, que mudança! E ali, naquele espaço, naquela viagem, naquele momento, passado, presente e futuro pareceram-me em concordância.”Numa manhã de junho, um grupo de pessoas reuniu‑se para visitar Ovar e escrever sobre a essência de um lugar, a partir do que ele significa para cada um. Não é isto literatura?
O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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