CIÊNCIA

Mais de duas em cada dez mulheres numa relação sofreram violência. As mais novas reportam mais

Ameaças, violência psicológica, violência física ou sexual. Em 2022, mais de duas em cada dez mulheres (22,5%) a viver uma relação afirmam ter ter experienciado algum destes tipos de violência em contexto de intimidade. No total da população entre os 18 e os 74 que viviam uma relação de intimidade, a percentagem desce para os 20%, devido à menor prevalência de violência reportada pelos homens (17,1%). Quando se olha apenas para a violência física (incluindo ameaças) ou sexual, a distância entre os géneros aumenta exponencialmente: 10,3% das mulheres dizem tê-la sofrido, contra apenas 3,8% dos homens.Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e da Direcção-Geral da Política de Justiça (DGPJ) foram divulgados esta terça-feira, assinalando o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres.E o que eles nos mostram é que a violência sobre as mulheres em contexto de intimidade continua a ser uma realidade persistente. Olhando para 2024, o INE e a DGPJ dizem-nos que, dos 57.910 crimes contra a integridade física registados nesse ano, 25.919 (44,8%) foram crimes de violência doméstica contra cônjuge ou análogo. E entre as vítimas desde crime específico, 71,2% das vítimas eram mulheres. Aliás, entre 2014 e 2024 as mulheres surgem sempre como sendo mais de 70% das vítimas do crime de violência doméstica pelo outro membro da relação, embora tenha havido uma diminuição desta percentagem, acompanhada de um crescimento por parte dos homens. Em 2014, 81,2% das vítimas eram mulheres, sendo 18,8% homens. Em 2024, os homens representavam já 28,8% das vítimas.Quando se olha em concreto para os homicídios conjugais (9,7% de todos os homicídios em 2024), a assimetria entre homens e mulheres é abismal. Neste ano, 92,3% das vítimas eram mulheres, ao mesmo tempo que 92,3% das pessoas condenadas por este crime eram homens. No ano anterior, 2023, a diferença ainda se acentuava mais: 100% dos condenados eram homens e 93,8% das vítimas eram mulheres.Anteriores parceiros mais violentosE quem são as mulheres que reportam ter sofrido qualquer tipo de violência em contexto de intimidade? O retrato estatístico, relativo a 2022, diz-nos que a percentagem de mulheres que diz ter sofrido violência por anteriores parceiros é mais de três vezes superior às que se referem ao actual parceiro, respectivamente, 36,3% e 9,3%. A maior parte delas (66,2%) afirmam ter sofrido essa violência há mais de cinco anos, mas ainda há uma percentagem significativa (15,6%) que diz ter sido vítima nos últimos 12 meses.São as mulheres mais jovens quem reporta mais violência em contexto de intimidade, com aquelas entre os 25 e os 34 anos (26,4%) a surgirem em maior proporção, logo seguidas da faixa etária seguinte, entre os 35 e os 44 anos (25,9%), e da mulheres entre os 18 e os 24 anos (23,8%).A prevalência é também mais notória entre as mulheres que reportam ter como rendimento algum tipo de subsídio (27,7%) e que se identificam como tendo algum tipo de limitação (30,3%) ou uma limitação severa (29,2%).A maior parte das mulheres vítimas deste tipo de violência garantem ter contado a alguém o que lhes aconteceu – 64,7% daquelas em que o agressor era um anterior parceiro e 50,6% em que é o actual – mas continuam a preferir falar com familiares ou amigos, em vez de com as autoridades oficiais. Uma realidade para 60,6% das mulheres que contaram ter sofrido violência por parte de um anterior parceiro e 43,4% das que reportaram ter sofrido violência por parte de um actual parceiro.No que se refere às consequências sofridas no âmbito dessa violência, os casos que se referem a anteriores parceiros surgem como mais graves. Pelo menos 64% das mulheres que sofreram violência por parte de um anterior parceiro dizem ter sofrido danos físicos (são 51% no caso dos parceiros actuais), mais de metade dos quais (50,9%) se traduziram em ferimentos, cortes ou fracturas. Não há inversão de tendência quando estão em causa danos psicológicos: 64,6% das vítimas de anteriores parceiros dizem sofrê-los, contra 56,5% das mulheres que reportam violência de parceiros actuais.Esta segunda-feira, o Observatório de Mulheres Assassinadas da União Mulheres Alternativa e Resposta revelou que este ano, e até 15 de Novembro, pelo menos 24 mulheres foram assassinadas em Portugal, 21 das quais vítimas de violência de género (femicídio), tendo ocorrido 16 destes crimes em contexto de intimidade.Também a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima revelou alguns indicadores, dando conta que o número de mulheres vítimas que apoia aumentou 11% entre 2022 e 2024, a maioria dos quais (85%) procurou ajuda por situações de violência doméstica.

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