DESPORTO

A variável menos falada na ascensão do populismo

Há uma variável pouco falada nas análises sobre o populismo. Falamos da crise, das redes sociais, da desinformação, da desconfiança nas instituições — mas raramente olhamos para algo que fermentou por baixo disso tudo: uma transição cultural lenta, iniciada nos anos 1970 e 80, que alterou a forma como pensamos a política, o trabalho e até quem somos. O populismo não caiu do céu. É o fruto — amargo — de um processo de desgaste social e político que, há mais de quatro décadas, transformou a democracia num palco.No fundo, o populismo é filho do neoliberalismo. É o resultado de um tempo em que a liberdade foi reduzida ao que Isaiah Berlin chamou de “liberdade negativa”, a simples ausência de intervenção do Estado. Foi também o tempo em que a política se tornou espectáculo. Com o colapso do consenso social-democrata e keynesiano dos Trinta Gloriosos, instalou-se a fé santa da mão invisível do mercado e do “cada um por si”. Thatcher e Reagan foram os seus profetas. Desde então, o mundo mudou — não só nas leis, mas sobretudo nas mentalidades.O neoliberalismo foi, e ainda é, mais do que um modelo económico. Foi toda uma mutação cultural. Passámos a achar “natural” que o sucesso seja mérito pessoal e o fracasso culpa própria. Tornou-se normal a mercantilização de diversos aspectos gerais da sociedade, desde o trabalho, a educação e a saúde. A vitória neoliberal mais profunda estão nas frases que se dizem sem pensar. “És de esquerda até começares a trabalhar” é um exemplo perfeito: um argumento que transpira rendição, a ideia de um sistema imutável e que o ser de esquerda é uma fase “adolescente” que acaba quando chega a “vida a sério”.Ainda assim a esquerda, perante isto tudo, hesitou. Com a emergência do neoliberalismo, a social-democracia ficou sem chão e tentou adaptar-se. Daí nasceu a “Terceira via”, popularizada por Anthony Giddens. Blair, Clinton e Schröder acreditaram que se podia “humanizar” o neoliberalismo. O resultado foi o contrário: um Estado continuou refém da economia, da financeirização e da lógica de mercado.Quando a crise em 2008 rebentou — à qual Clinton, incrivelmente, até contribuiu significativamente com a revogação do Glass-Steagall Act —, essa mesma esquerda já não tinha discurso nem convicção para se distinguir da direita. Foi perceptível uma ideia de que todos falavam a mesma língua: austeridade e inevitabilidade. E foi neste vazio — do “todos iguais” — que o populismo entrou. As pessoas efectivamente sentiram-se esquecidas, e cansaram-se.O populismo soube ocupar esse espaço, oferecendo uma resposta emocional a uma frustração sentida. Prometeu fazer países “grandes de novo”, castigar as elites, proteger “o povo”. Mas a ironia é que, apesar do discurso de ruptura, é parte do mesmo sistema que o criou. Trump, Le Pen, Orbán apresentam-se como inimigos das elites, mas defendem políticas que prolongam a lógica neoliberal que as criaram — a mesma que desfez as antigas certezas colectivas e deixou as pessoas sozinhas, a competir por migalhas de segurança.A variável menos falada, então, é esta: o populismo não é uma reacção externa ao sistema, mas o sintoma do seu próprio colapso interno. Décadas de culto individualista corroeram o tecido que ligava as pessoas entre si. Quando a política reduz o cidadão a contribuinte, a democracia deixa de ser sentida como espaço de pertença. Lacuna perfeita para o populismo, que devolve um sentimento de identidade — mesmo que distorcida — e transforma o desespero em narrativa.Engana-se quem pensa que o populismo nasceu porque as pessoas ficaram mais ignorantes. Nasceu porque ficaram mais sós. Porque o Estado retirou-se, porque a vida se tornou demasiado instável para acreditar em promessas. E porque, no meio desse vazio, quem consegue gritar mais alto parece soar mais verdadeiro do que quem fala até com alguma pertinência.O desafio do nosso tempo não incide apenas em travar o populismo. Incide, sim, em reconstruir a base social que o tornou possível — recriar um sentido de comunidade e de justiça que contrarie a lógica do “cada um por si”. A resposta não pode estar em moralismos, tem de estar em devolver à política o seu poder de transformação e à sociedade o seu sentido de pertença.O neoliberalismo ensinou-nos a competir. O populismo é o grito de quem perdeu nesse jogo. A questão é se teremos a coragem de reconstruir o campo.

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