Quem tem medo da cultura científica?
A desinformação custa à economia mundial 78 mil milhões de dólares todos os anos; um número que conhecemos por ser idêntico ao resgate da Troika a Portugal. A ciência não só não é imune à desinformação como tem sido objecto de muitos esforços para lhe retirar confiança e aumentar a polarização.Hoje é Dia Nacional da Cultura Científica, uma data escolhida para homenagear o professor de Físico-Química e poeta Rómulo de Carvalho, alias António Gedeão. Tendo escolhido um tão bom exemplo para homenagear, a cultura científica em Portugal pode e deve almejar a um futuro melhor.Num ensaio publicado em Maio deste ano, Uma Ideia de Ciência, a professora e investigadora Joana Gonçalves de Sá descreve a ciência nas suas contradições: das regras do método ao acaso da descoberta, da bênção do conhecimento que permite os recursos e tecnologias que melhoram e dão conforto à vida humana, à maldição da sua discrição, do tempo e dinheiro necessários, e da constante precariedade dos cientistas. Por toda a sua paixão e sensatez, confesso que foi a primeira vez em três anos que li algo que me deu vontade de voltar à investigação científica. Mas devido a dias como o que hoje se assinalam, não precisarei de o fazer.Os cientistas estão onde quer que haja ciência – na floresta, na fábrica, no forno ou até nas finanças. Mais do que tudo, a ciência é uma atitude perante a vida – analisar factos para nos aproximarmos o mais possível da verdade. E, por isso, precisamos de trazer os cientistas para todas as áreas da sociedade. Contrariando André Ventura, a “parte opinativa” deriva pelo menos parcialmente da “parte científica”. Por exemplo, ao descobrirmos o que causa dependência no cérebro, poderemos agir para o evitar e ajudar as comunidades afectadas. Ao sabermos que é uma diferença bioquímica e não um défice de carácter, a nossa opinião eventualmente alterar-se-á, e com ela as políticas públicas.
Contudo, a tempestade perfeita e metediça da desinformação, a falta de debate com pensamento crítico e a literacia científica reduzida impede que os portugueses aproveitem a excelente opinião que têm acerca da ciência. Segundo o Eurobarómetro, somos os primeiros na União Europeia a considerar que a ciência deve desenvolver soluções para todos, e os terceiros a considerar que o impacto da ciência é positivo.Se combinar o bom senso com a minha formação em bioquímica e biologia, posso especular que esta situação arrisca o contrário do que disse no parágrafo anterior: sujeitamo-nos a que a opinião pública seja tão anticientífica que condenará à extinção qualquer possibilidade de prosperarmos, qual glutão do Presto. Sem ciência, sem cultura, sem razão.Como chegámos aqui? Tendo em conta a história secular, não é de estranhar que Portugal fosse um país atrasado na ciência no início do século XX, depois da expulsão de vários grupos conhecidos pela sua literacia, dos judeus aos jesuítas. Contudo, mesmo enquanto o país mergulhava na ditadura do Estado Novo, cientistas como Branca Edmée Marques continuaram a destacar-se. Orientada por Marie Curie, Branca Edmée Marques doutorou-se em Paris e ao regressar para continuar a trabalhar em radioquímica, deparou-se novamente com o ritmo português, tendo atingido a posição de professora catedrática aos 65 anos.Por sua vez, é impossível não falar de nomes como Mariano Gago, que juntou à extensa actividade de investigação em física ao mais alto nível com o cargo de ministro da Ciência e da Tecnologia, o primeiro dedicado exclusivamente à área; também António Coutinho e Maria de Sousa, curiosamente ambos imunologistas, contribuíram muitíssimo para o desenvolvimento do sistema científico português em paralelo com as respetivas carreiras de investigação de topo. Em suma: além de dedicar a vida em busca do conhecimento, criaram faíscas que permitiram que muitíssimos outros o fizessem.Terá resultado? No estudo “A evolução da ciência em Portugal” (1987‐2016), verificamos que temos mais investigadores que antes, mas quase todos no sector público. Sabemos também que houve mais investimento até 2011 tanto para investigação como para formação de doutorados, mais colaborações e mais publicações. Contudo, apesar do aumento de impacto, a ciência em Portugal grosso modo não está no topo. Resumindo: com ovos de codorniz, os melhores chefs do mundo não matam a fome por melhor que sejam as suas receitas de omelete, frittata ou ovos Benedict.Então, quem tem medo da cultura científica? Quando somos crianças, abraçamos a ciência: fazemos perguntas, somos curiosos, questionamos os dogmas. Cada vez que o fazemos na idade adulta, mostramos como a ciência é democrática – mas o imediatismo e a desinformação fabricada por movimentos extremistas são o contrário.Os cidadãos portugueses vivem numa era que democratizou a ciência. Disse acima que os cientistas estão prontos, capazes e com vontade de ser envolvidos. Acrescento: sabemos que é só com comunicação entusiasmada, íntegra, constante, sem ligar o “complicómetro” nem o “condescendómetro” que iremos conseguir. E o timing é crucial: tal como uma fofoca, desmentir desinformação é muito mais difícil do que passar a informação correcta primeiro (o chamado “prebunking”). Isto é ainda mais essencial quando a paciência para textos longos é pequena, e para a verificação é ainda menor.Deixem os cientistas trabalhar, e verão o impacto da desinformação diminuir. Com este esforço, ajudaremos a criar uma sociedade moderada, solidária, próspera.










