O chapéu seleccionador hoje chamou-se Catarina Martins. E Gouveia e Melo
É uma personagem discreta, mas determinante: é um chapéu falante, que entra na cabeça do aluno, percebe o perfil, as características, e escolhe qual a equipa que vai integrar. Chama-se chapéu seleccionador, foi colocado na cabeça de todos os alunos de Hogwarts, na saga Harry Potter, e pareceu ter feito uma presença em Paço de Arcos neste domingo. Uma dupla presença.Henrique Gouveia e Melo e Catarina Martins juntaram-se (foi o primeiro debate televisivo com uma presença feminina nas quase praticamente masculinas Presidenciais de 2026), mas não houve assim tanto interesse em saber o que o outro pensava; houve, sim, vontade de posicionar o outro numa equipa, lá bem distante, de preferência: mostrar que está ali um “outro”, e que o “eu” não está perto.O almirante não precisou de esperar muito, qual chapéu seleccionador a dizer que Malfoy pertence aos Slytherin sem esperar um segundo: “Boa noite, Sra. Deputada Catarina Martins”. Logo para posicioná-la no Parlamento Europeu, no Bloco de Esquerda, num compromisso partidário que Gouveia e Melo assegura não ter. Acusou-a de ter “um pé” em Lisboa, um outro de recuo em Bruxelas. “Temos um oceano de diferenças entre nós”. “Parece que veio a estas eleições numa lógica partidária”. Tem “certas declinações de marxismo-leninismo”. “A minha candidatura é suprapartidária, quero unir os portugueses, tenho os dois pés aqui”.Catarina Martins – que fez questão de dizer que está em nome próprio, não em representação do Bloco de Esquerda – respondeu: “A mim ninguém me diminui por eu ser eleita”. E lá veio a lembrança de um almoço de Gouveia e Melo com André Ventura (não há conversa política que não passe por Ventura, a culpa não é só dos jornalistas), e que contou com um “magnata” – segundo foi noticiado trata-se de Mário Ferreira, porque o nome não foi mencionado. Um esforço do chapéu seleccionador Catarina Martins de afastar da esquerda um candidato que não quer assumir-se nem de direita nem de esquerda, deixá-lo de fora para que não venha roubar uns votos.Nesse esforço, Catarina Martins também quis mostrar indefinições do almirante (o próprio Harry Potter não foi logo escolhido como um Gryffindor, o chapéu teve dúvidas, e também aqui a bloquista as quis evidenciar): “De que lado é que está? Saber de que lado é que está é importante”, perguntou, sobre a reforma do mercado laboral, em que o almirante tem dito não se querer comprometer, porque há negociações a decorrer – e nunca se sabe se terá de pronunciar sobre o dossiê, se chegar ao Palácio de Belém. “Uma Presidente da República deve ter causas”, disse, mostrando que desconhece as do opositor.De resposta, Gouveia e Melo veio dizer onde está, mas através – lá está – do posicionamento da adversária: “Eu estou do lado de uma economia livre e não estatizada”. “O planeamento central já deu os resultados que deu”. “Não sou adepto da igualdade na pobreza”. Está, disse, contra o que chama as “respostas de ideologias”.O almirante quer “mudar” o país, a deputada pretende “reinventar” o país, e um e outro querem apontar contradições alheias (ainda que haja pelo menos um ponto em comum, além dos blazers azuis que levaram à SIC: a dificuldade com que vêem o uso do poder de terminar legislaturas em curso). Em meia hora, não há só diferenças, faz parte, ainda podem mostrar onde estão os outros nos debates em falta.Este debate, sem interrupções abruptas, civilizado, cordial, nem era preciso vê-lo para saber que ali estavam dois mundos. Antes mesmo de se sentarem na mesa, já tinham mostrado no átrio do edifício da SIC que eram diferentes: Gouveia e Melo calmo, sério, mãos atrás das costas, mais esfíngico, Catarina Martins mais eléctrica, a esbracejar, sorridente.Mas ambos quiseram mostrar que há um “oceano”/“mar” de diferenças” (Gouveia e Melo disse-o e usou os dois termos, tem de se decidir sobre a dimensão das diferenças), mas o chapéu seleccionador será outro no dia das Presidenciais. E quando se perde mais tempo a mostrar onde está o outro, pode restar pouco para mostrar onde se está. Mas, num mundo polarizado como o actual, também ninguém percebe se a vantagem é saber-se onde se está, ou onde não se está.










