DESPORTO

Palcos da semana: <em>Titus</em> e <em>Menina Júlia </em>com freak-folk e liberdade a Contrapeso

Da repressão à Liberdade LiberdadeEstreia-se em Novembro, mas cheira a cravos de Abril este “espectáculo de circo contemporâneo onde o corpo é revolução e a saudade é bandeira”. Erguido por Diogo Freitas (direcção e dramaturgia) e a fazer-se valer “da acrobacia aérea, da fisicalidade crua e da poesia do risco”, Liberdade Liberdade está nos movimentos da dupla formada por David David e Tjaša Dobravec, à medida que dão vida a uma “carta acrobática que atravessa o tempo, a censura e o medo”, explicam as companhias Momento – Artistas Independentes e Ângulo Crítico, responsáveis pela peça.A carta não é apenas metafórica: baseia-se em correspondência real, trocada entre os avós de David David quando a ditadura agrilhoava as palavras e atirava os afectos para a clandestinidade. Esse amor em suspensão vai-se revelando numa “estrutura cénica [que] é simultaneamente obstáculo e possibilidade”, descrevem, e onde a história atravessa 12 momentos – ou “postais de uma vida interrompida” – que vão “da repressão à explosão da liberdade”.
O presente de Titus“Onde acaba a justiça e começa a vingança? E que vidas (inocentes) se tornam descartáveis nesse processo?” São perguntas lançadas pela Estrutura ao trazer o abuso e a carnificina da peça mais sangrenta de Shakespeare, Titus Andronicus, para uma actualidade cravada de guerras e ressurgimentos autoritários. A encenação é de Cátia Pinheiro e José Nunes, que contaram com Hugo van der Ding na adaptação.Assim nasce um Titus em que, desvenda a companhia, “a fronteira entre o trágico e o cómico é usada como lupa para observar a forma como consumimos a violência” – em directo, em espectáculo, viciada e “comentariada” até à náusea e à anestesia. Joana Ricarte, especialista em relações internacionais e conflitos, contribui como consultora científica. Cátia Pinheiro, João Oliveira, Maria Inês Peixoto, Pedro Frias, Roldy Harrys, Rui Maria Pêgo, Tiago Jácome, Tita Maravilha e Vicente Gil compõem o elenco.
A vintena de Cripple CrowCom ares de Santa Maria de Feira e aroma a Canela. Assim saiu, em 2005, o álbum com que Devendra Banhart, com a sua freak-folk, a sua aparência “crística” e essas canções com títulos em bom português, conquistou ainda mais fiéis por estas (e outras) bandas. É nesse tom que o reencontramos agora.O norte-americano, que tem passado por cá com regularidade — incluindo durante a digressão assente no último disco de estúdio, o contemplativo e introspectivo Flying Wig (2023) —, anda a recuperar Cripple Crow — o tal de há 20 anos, com a capa que emulava a do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles — e que foi alvo, este ano, de uma reedição deluxe.Se estes motivos não chegarem, veja-se o nome que abre os concertos: Gina Birch, das Raincoats, pronta a espalhar a palavra de Trouble, lançado no Verão passado como sucessor da estreia a solo, há dois anos, com I Play My Bass Loud.
Menina Júlia ainda viveEm 1888, saía da pena de August Strindberg a obra-prima Menina Júlia. Censurada na época, pelo conteúdo considerado chocante, a tragédia do autor sueco ressoa nos nossos dias: pelo papel que atribui à emancipação da mulher, pelo âmago de tensão social, pelas forças que se posicionam para (a) controlar.É o que acontece na nova versão encenada por João de Brito, para quem a peça “é de uma actualidade impressionante”, acentua. “Quando [as personagens] se cruzam, tudo se torna tóxico, e acabam por cair no abismo”, acrescenta. “Essa luta de classes, essa busca por liberdade e o desejo de romper com os cânones e tradições são temas que continuam vivos, e é por isso que me interessa tanto levá-los à cena em 2025”.É uma co-produção do Lama Teatro e do Trindade, com interpretações de Helena Caldeira, João Jesus e Rita Brütt. Os figurinos são de José António Tenente. Da sonoplastia trata Noiserv — ele que neste momento anda pelos palcos do país também a exibir o novo álbum, 7305 (próximas paragens: 26 de Novembro no Centro Cultural de Belém, Lisboa; 29 no Teatro Aveirense; e 6 de Dezembro na Casa da Música do Porto). Quanto a Menina Júlia, depois da estreia em Lisboa, desce a Faro a 7 de Fevereiro, no Teatro Lethes.
Palco e academia a ContrapesoCom um pé no teatro e outro no jazz, o Contrapeso manifesta a vontade de se equilibrar noutro ponto: o do encontro entre Arte e Academia. A inauguração é exemplar: faz-se com uma leitura encenada do Crocodile Club de Mickaël de Oliveira pelo Sin-Cera – Grupo de Teatro da Universidade do Algarve.Está dado o tema de uma quinta edição que “convoca artistas que são também docentes e investigadores” — “uma abordagem particularmente relevante numa região com a mais alta taxa de abandono escolar de Portugal continental”, enfatiza a nota da organização, a cargo da Mákina de Cena e sob a direcção artística de Carolina Santos e Marco Martins.Até ao cair da cortina, entregue a Kintsugi – 100 Memórias, da trupe brasileira Lume Teatro, o propósito cumpre-se noutras peças, em conferências performativas, em marionetas e num colóquio internacional (dois dias de mesas-redondas, workshops e masterclasses, a 27 e 28). A dar jazz a tudo isto surgem músicos como Luigi e Pasquale Grasso, Samuel Lercher ou João Paulo Esteves da Silva.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.