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Brasileiro tenta, há mais de um ano, levar a mãe doente da Suíça para o Brasil

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O carioca Marcelo Oliveira de Assis, 53 anos, já não sabe mais a quem recorrer em busca de ajuda. Há mais de um ano ele está em Genebra, na Suíça, tentando levar a mãe doente para o Brasil, mas é impedido pela burocracia. Nem mesmo uma decisão judicial em favor dele tem sido suficiente para que o curador das finanças da mulher, Nourredine Baki, faça o que precisa ser feito: comprar as passagens para mãe e filho e, todos os meses, depositar a aposentadoria dela no Brasil, para que ela possa custear as despesas pessoais e com saúde.Maria Lúcia Eggenschwyler, 73, mudou-se para a Suíça há quase 50 anos. Ela cruzou o Atlântico para trabalhar como empregada doméstica de um diplomata brasileiro. Foram anos e anos nessa jornada, até que se casou com um alemão, por quem se apaixonou. Já completamente ambientada no país europeu, adotou o sobrenome do marido e se naturalizou suíça. Hoje, a brasileira está internada numa clínica psiquiátrica, com Alzheimer em estágio inicial.Quando decidiu se mudar para Suíça, onde acreditava que teria uma vida melhor do que a que levava em São Gonçalo, periferia do Rio de Janeiro, Maria Lúcia deixou aos cuidados dos pais o único filho, Marcelo, ainda muito criança. Foram os avós, inclusive, que registraram o menino como filho. A brasileira, porém, nunca abriu mão do papel de mãe e deu tudo o que pode a Marcelo, que chegou a morar um tempo na Suíça, mas não se adaptou à vida no país.A saga do filho para levar a mãe para o Brasil começou em Portugal em meados de 2024. Maria Lúcia tinha se programado para visitar a família no Brasil, mas, durante a escala do voo dela, em Lisboa, teve um surto, o que resultou em uma internação. No hospital na capital portuguesa, funcionários conseguiram encontrar Marcelo por meio do registro de uma ligação que Maria Lúcia tinha feito para o filho. “Queriam que eu me deslocasse imediatamente para Portugal para cuidar da minha mãe. Mas não tinha a menor condição financeira para isso”, diz ele ao PÚBLICO Brasil.Sem a presença do filho em Portugal, o hospital de Lisboa entrou em contato com o Consulado-Geral do Brasil em Genebra, como relatam diplomatas que lidaram com o caso, para tentar achar um outro parente de Maria Lúcia. Funcionários da representação consular foram à residência da brasileira em Genebra, mas não encontraram ninguém — ela já estava viúva havia anos. “Também não conseguimos contato com nenhum dos vizinhos”, ressalta um dos servidores do consulado.O hospital em Lisboa, então, recorreu ao consulado da Suíça na capital portuguesa, que tratou de transferir Maria Lúcia para Genebra, onde foi internada. “Como ela tem nacionalidade suíça, houve a remoção de Lisboa. Desde então, ela está internada e o filho dela, assim que pode, se descolou para Genebra e está na luta para levá-la para o Brasil. Mesmo tendo se passado mais de um ano, ele continua tentando, sem sucesso”, complementa o mesmo diplomata.Desconfiança e perseverançaDesde que pisou na Suíça, Marcelo teve de enfrentar uma série de obstáculos. A batalha começou em São Gonçalo, onde ele vendeu o pouco que tinha para obter o dinheiro necessário para a compra das passagens áreas. Quando pisou em solo suíço, se deparou com a desconfiança. “Assim que me apresentei como filho de Maria Lúcia, fui visto como um aproveitador, que só queria ficar com o dinheiro da mãe”, relata. “Poucas pessoas me deram atenção, mas não desisti”, frisa.Com a ajuda de diplomatas brasileiros, que se sensibilizaram com a história dele, começou a enviar cartas para autoridades suíças e para a Justiça local, até que uma juíza aceitou um pedido para ouvi-lo. “Mesmo assim, houve muita relutância para que ele fizesse um exame de DNA para comprovar que era realmente filho de Maria Lúcia. Assim que o resultado saiu, no meio deste ano, a juíza responsável pelo caso (Pauline Brum Sofia) decidiu que Marcelo poderia levar a mãe para o Brasil”, ressalta outro diplomata ouvido pelo PÚBLICO Brasil.Na sentença, porém, a juíza determinou que Marcelo ficaria como curador da mãe para as questões de saúde e Nourredine Baki, pela gestão financeira. “Há, na Suíça, essa questão de curadores. É o Estado que determina, e profissionais são preparados para isso. Mas como Marcelo pode cuidar da saúde da mãe, se o dinheiro está nas mãos de outra pessoa?”, questiona esse segundo diplomata. “De nada adiante mãe e filho irem para o Brasil, se não tiveram como se sustentarem”, complementa.Dependência de ajudaNesse mais de um ano em que está em Genebra na luta para levar a mãe de volta para o país natal dela — em depoimento à Justiça, durante o processo, Maria Lúcia disse que era desejo dela retornar para o Brasil —, Marcelo tem vivido de favores. “Neste momento, estou abrigado na casa de uma senhora que trabalhou com a minha mãe por muito tempo. É ela quem está me ajudando até com as passagens de ônibus para eu me descolar pela cidade”, diz ele.Marcelo afirma que não quer que a mãe morra sozinha, internada em um hospital. “Ela sempre se preocupou comigo, mesmo estando distante. Agora, é a minha vez de cuidar dela. Nos momentos de lucidez, ela me pede, a todo momento, que eu a leve de volta para o Brasil. É por isso que estou lutando. Não sei até quando terei forças para isso. Já não tenho mais dinheiro e não posso mais viver de favores”, assinala. Procurado pelo PÚBLICO Brasil, o curador Nourredine Baki não foi encontrado em seu escritório em Genebra.
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