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Missão Escola Pública: “Estado não consegue garantir todos os professores, mas promete tutores digitais”

O Governo promete um “tutor de Inteligência Artificial” para cada aluno. O movimento Missão Escola Pública diz que é “no mínimo, um contra-senso num país onde muitas escolas não têm rede wi-fi funcional, onde o próximo Orçamento do Estado não prevê qualquer verba para esse fim — ao contrário do que aconteceu em anos anteriores — e onde as próprias recomendações nacionais e internacionais apelam à redução do tempo de exposição dos jovens aos ecrãs”. Mais grave, acrescenta, “o Estado não consegue garantir um professor humano em todas as salas de aula, mas promete um tutor digital para cada aluno”.O movimento de professores divulgou um comunicado esta quinta-feira no qual reage à análise detalhada dos resultados dos exames do 9.º ano e das provas Moda divulgada esta semana. “O relatório nacional das provas finais de 9.º ano, divulgado pelo Iave [Instituto de Avaliação Educativa], vem confirmar o alerta que a Missão Escola Pública tem repetidamente lançado: Portugal tem hoje uma escola a duas velocidades. Uma escola onde os alunos do Norte e das regiões com professores colocados atempadamente obtêm resultados mais elevados, enquanto os alunos do Sul e das zonas mais carenciadas continuam a ser vítimas da escassez estrutural de professores.”Os dados oficiais mostram que o Norte lidera as médias nas provas de Português (59,5%) e de Matemática (54,4%), enquanto a Península de Setúbal (46,5%) regista os valores mais baixos no continente, confirmando o padrão de desigualdade territorial. “No Norte, as escolas contam com maior estabilidade do corpo docente, composto maioritariamente por professores profissionalizados e com experiência; a sul do Tejo, milhares de horários continuam a ser assegurados por recursos humanos sem formação em ensino, ou não encontram sequer candidato mantendo alunos sem aulas a determinadas disciplinas durante grande parte do ano lectivo. Para agravar o cenário, as medidas de promoção do sucesso educativo estão a ser suspensas ou abolidas em várias escolas do Sul, por falta de recursos humanos, enquanto no Norte essas medidas continuam a ser implementadas, acentuando ainda mais as desigualdades”, sublinha o comunicado.Nas provas Moda, as conclusões são semelhantes: Alentejo, Algarve, Península de Setúbal e Açores apresentam, genericamente, médias mais baixas, enquanto Norte, Centro e Região Autónoma da Madeira apresentam médias mais elevadas.Uma das conclusões que os relatórios nacionais apontam é a dificuldade que os alunos têm nas competências mais complexas como a produção de textos, a resolução de problemas, o raciocínio ou em estabelecer relações entre várias fontes. E revelam ainda grandes diferenças no desempenho por parte dos alunos das escolas públicas e privadas — com vantagem para estes últimos. Nas provas Moda, e logo nas do 4.º ano, são também visíveis várias diferenças entre os estudantes beneficiários de Acção Social Escolar (ASE), que provêm de famílias com menos recursos, e aqueles que não são beneficiários: estes atingem níveis de proficiência mais elevados.A Missão Escola Pública reafirma que não é a Inteligência Artificial que falta nas escolas — são professores, psicólogos, terapeutas e assistentes operacionais. “Enquanto o Ministério da Educação ignora o que é essencial — condições de trabalho, estabilidade profissional e recursos humanos —, as desigualdades aprofundam-se e o código postal continua a determinar a qualidade da educação em Portugal”, escreve este grupo de professores, apelando ao Governo que tome as medidas necessárias para inverter resultados. Isso passa por “tornar a carreira docente verdadeiramente atractiva”, afirmam, considerando que o protocolo negocial apresentado aos sindicatos na semana “está longe de traduzir a negociação séria, atempada e eficaz do Estatuto da Carreira Docente de que o país precisa”.

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