Esperar a chuva passar
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Começou o outono e, como ele, vem o autumn blues, aquele início de depressão sazonal, que é só um lampejo do que virá com o inverno. O corpo é rei e os neurotransmissores dão sinais. Os dias escurecem mais cedo, o céu começa a ficar cinzento, as folhas acastanham e… vem a chuva! Há o alívio do veranico de São Martinho, com magusto e vinho novo para provar, mas, para os mais resistentes às despedidas dos dias ensolarados, a chuva vem sublinhar a transição de estações, quando já não se pode mais fazer vista grossa com os céus sobre nós.O verão passa e o céu começa a aguar, mas bem diferente da transição entre o verão e o outono em terras tropicais, marcada pelas águas de março. No fim do verão, por lá, as gotas d’água caem mornas e avantajadas, refrescam os dias quentes e alegram os que dispensam as sombrinhas e se rendem aos banhos de chuva.Lembro-me, quando criança, do meu debut de banho de chuva em final de verão: meu tio chegou em casa após o expediente, deixou as coisas do trabalho sobre o sofá, pegou-me pela mão e disse-me: “Vamos tomar banho de chuva!”. A minha tia riu. Fiquei sem entender nada: o que era um banho de chuva? Minha tia disse-me que meu tio adorava tomar banho de chuva de verão, sair na rua sem guarda-chuva, de propósito, para sentir a água levar o calor.Minha tia vestiu-me com galochas e com roupas que pudessem molhar. Em seguida, saímos ele e eu sob a chuva. Meu tio cantarolava, de sorriso largo, alguma melodia que trazia no peito. Na caminhada, inaugurei o contentamento genuíno de passear na chuva, enquanto sentia o cheiro das plantas molhadas e ouvia a cadência ritmada das gotas d’água sobre o asfalto se misturar com o canto do meu tio.Na volta, minha tia nos recebeu na porta de casa com as toalhas na mão, como quem oferece uma toalha para bater a areia dos pés no momento de sair da praia, antes de entrar num transporte. O fechamento do ritual de ida à rua para tomar banho de chuva se confundia com o fechamento do ritual de ida à praia para tomar banho de mar.Cruzei a porta enrolada na toalha e ela me levou direto para um banho quente, a última etapa do ritual de banho de chuva de verão. Um pouco depois, jantamos juntos, vimos um filme e fomos dormir. Foi um dia bom, desses que são feitos por coisas pequenas e grandiosas. Ele fez a relação com chuva ser um termômetro de pertencimento.Segundo o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, os rituais transformam o estar no mundo num estar em casa. Eles fazem no tempo, espaço cronológico, o que uma habitação faz no espaço físico. Os rituais são a mobília do tempo, e um fenômeno natural sazonal fez do banho de chuva um ritual de mudança de estação, como um banho de mar da primavera e do verão.Anos depois, uma nova descoberta: o banho de chuva em bloco de carnaval no Rio de Janeiro. Se o calendário junta a chuva com a folia, o povo pula o carnaval na rua e deixa a água molhar. Banhos de chuva e carnaval são rituais que se cruzam, que habitam o espaço, marcam a passagem do tempo e afloram o sentimento de comunidade, continuidade e pertencimento. Vi pequenos milagres acontecerem na minha frente em interações despretensiosas ocasionadas pela mistura de chuva com carnaval.Vi antigos namorados se reencontrarem e darem uma chance ao acaso; vi colegas de faculdade finalmente deixarem transparecer outras camadas de interesse e se entregarem aos beijos; vi pessoas que se conheceram em reuniões de trabalho se reconhecerem sob as águas e purpurinas e virarem foliões unidos; vi o vão da Praça Marechal Âncora servir de abrigo para o bloco de carnaval clandestino esperar a chuva passar, enquanto o imperativo da chuva fazia a intensidade do bloco ficar ainda melhor.As chuvas de final de verão marcam muitos carnavais cariocas e fazem até com que, muitas vezes, os foliões já saiam de casa pela manhã com uma fantasia preparada para tudo, faça chuva ou faça sol. Sofrem os músicos, por exemplo, quando molham as sapatilhas dos saxofones. Lá se vão os gastos com o luthier… Sofrem pernaltas sobre pistas escorregadias, mas há quem goste do desafio. Na avenida, sofrem todos com o aumento do peso das fantasias e adereços molhados. Sofrem também com a preocupação de que os reveses causados pela chuva venham a impactar na pontuação conferida para cada quesito avaliado pelos juízes. Cenas de apuração…Os céus do PortoDeslocado do imaginário carnavalesco e veranil carioca, o banho de chuva europeu, sem os devidos aparatos, é sofrível. Não é sobre o mau tempo, é sobre preparo, paciência e equipamentos. Sobretudo no outono e no inverno. Por cá, ainda não vi os pequenos milagres sob a chuva, que é fria, às vezes cortante, e acompanha um vento gélido. Tem quem prefira quando começa a nevar, mas também quem odeie a neve pelos efeitos secundários de quando ela derrete.Com um bom casaco impermeável, um guarda-chuva reforçado e botas resistentes, pode ser até prazeroso caminhar na chuva (para o banho de chuva, haja coragem). Tenho amigos portuenses que realmente gostam de caminhar na chuva. É um tipo de ritual de introspecção para eles: sentir o cheiro da chuva, olhar a rua molhada, apreciar o céu cinzento e ficar em silêncio para contemplar o ruído branco da cadência da chuva abafar o som da cidade.O contraste entre a chuva quente dos trópicos, que acompanha a extroversão, e a chuva fria do Norte, que convida à introspecção, mantém as águas do céu na maestria que orquestra o nosso tempo de vida e os rituais que escolhemos para habitar o tempo, que mudam de forma cíclica com a chegada ou partida de uma estação do ano.Do Rio de Janeiro para o Porto, torci o nariz para a chuva desde que cheguei a Portugal, ou melhor, ao Norte de Portugal. Os céus do Porto adoram fazer lembrar quem é que manda aqui e, de pirraça, nessa altura do ano, se calhar não deixam que as roupas sequem nunca mais depois de lavá-las. Ralhei com os céus portuenses várias vezes no meu antigo quintal. Nesses anos, a chuva portuense fez de mim uma leitora mais assídua e, também, uma frequentadora de bibliotecas públicas, o que trouxe o gosto pela escrita.A chuva à moda do Porto abre alas para a busca por recolhimento em lugares acolhedores, que por cá há em toda parte: os museus, os teatros, os cinemas, as salas de concerto e os cafés demarcam o território cultural desta cidade. Entre Porto e Lisboa, este é o primeiro ano em que dei uma trégua de ralhar com a chuva e baixei a guarda para apreciá-la, silenciei para ouvir, cessei o movimento para contemplar. Quem sabe assim, finalmente, se desvelam os pequenos milagres possíveis sob chuva fria, desses que o apego do olhar impregnado pela memória da chuva quente impede de enxergar.Passei a usar a chuva de cá como um recurso para lidar com o que não controlamos na vida. Quando tudo já foi dito aos céus e nenhuma escuta pode resolver o problema, e quando o que pode atenuar as coisas está no que não controlamos, trato o assunto como a chuva: espero passar até que melhore. Esperar passar é uma escolha ativa, já que pede uma pausa atenta, dessas que não se entregam a esperar pelo desfecho. Ao contrário, checam as janelas para ver se o amainar se avizinha, se a cadência da chuva dita tempo de repouso ou de voltar à ação.A pausa convida à presença e abre espaço para o tempo que o tempo leva para mudar as coisas de configuração. Às vezes, de uma semana para a outra, muda tudo, e a teimosia da pressa é o prelúdio do azedume. Na chuva quente, a gente canta, dança e deixa molhar, mas, na chuva fria, a ritualística é diferente. Pede os recursos para atravessá-la ou a espera atenta até a estiagem. Num piscar de olhos, daqui a pouco já chega outro janeiro.Fecho a janela para a chuva não entrar. Após dois anos, finalmente aprecio a chuva fria: ela dá motivos para virar as costas para o que está fora das nossas rédeas e, melhor, abre espaço para afrouxar as rédeas quando o melhor movimento é a inatividade, não como uma recusa, mas como a aceitação que abre espaço para a contemplação. A chuva fria legitima a escolha de recolher-se em si mesmo pelos próximos meses, sem culpa, mas com inteireza.
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