<em>Pluribus</em> é uma das séries do ano e, de muitas, só uma é de Vince Gilligan
Que força é essa que trazes nos braços, que só te serve para obedecer, que só te manda obedecer? Que força é essa, amiga Carol? Que força é essa, amigo Manusos? Vince Gilligan, senhor Breaking Bad e mister Better Call Saul, tem uma nova série e nem ele sabe bem que força é essa que Pluribus tem — e que dá a quem a vê. Ou melhor, prefere que todos pensem em Pluribus em conjunto. Tal como na série da Apple TV, em que se vê como funciona, soalheira e saltitante, uma mentalidade de colmeia, uma consciência colectiva. Mas “todos” sabemos que a unanimidade não existe, só a identificação é real, certo? Certo?Sim, Pluribus é uma das séries do ano e é bastante singular. E amarelada. “Não sei sobre o que Pluribus é. Gosto de falar com pessoas que me ajudam a entender o que minhas séries significam”, disse Gilligan ao diário brasileiro Folha de S. Paulo. É uma série para se ver em pacotinhos, arrisque-se, e depois, absoluta e decididamente, para se debater.Convida-se o colectivo a folhear a Internet e tudo o que anda a ser escrito sobre Pluribus desde sexta-feira passada, quando os primeiros dois episódios se estrearam (no total serão nove, o PÚBLICO teve acesso aos primeiros sete e há estritas regras sobre o que não se pode revelar acerca de cada um deles). Nessa Internet televisiva, há uma vénia de adulação, mas com uma mão que adeja demasiado, porque o indicador não é capaz de pousar na ferida. E isso é espectacular.Dizer o que é Pluribus é difícil não só porque a escorregadela nos spoilers é inevitável mas também porque é entretenimento original duro de categorizar. Acredite-se: é ficção científica, mas não parece; é um drama, mas tem piada; é uma série devoradora, apesar de se comprazer na delonga dos seus gestos, nas suas câmaras que se passeiam por paisagens cénicas ou interiores, fazendo o público ansiar pelo episódio seguinte. Menos é mais.
Tente-se, e já que se pediu a ajuda ao Sérgio Godinho de 1971 e do álbum Os Sobreviventes no início deste texto, convencer toda a gente de que Pluribus é a maneira de estar no presente através de uns desvios pelo passado televisivo.Carol (Rhea Seehorn, vinda de Better Call Saul) escreve aqueles livros de fantasia erotizada que fazem dinheiro mas não orgulham. É ela que guia o espectador num mundo onde, de repente, e por motivos a constatar no primeiro episódio (e que metem tantas lambidelas), é possível ser mesmo feliz, estupidamente feliz, numa onda Bob Marley de um amor, um coração, só que sem reggae e mesmo unidos-unidos. Só as sinopses e os críticos adiantam que Carol, personagem de um assertivo cinismo, terá como missão salvar o mundo. Não é esse o caminho que o espectador pode fazer. Só as suas sinapses, na verdade, decidirão se o caminho é Ficheiros Secretos (série de que Gilligan foi argumentista) ou Mulheres Perfeitas, o filme de Frank Oz, em que a felicidade das donas de casa é tal que lhes doem os rostos.O público de Pluribus (do latim e do lema do Benfica “de muitos”) pode só deixar-se ir, sentir-se um bocado em Severance, outro bocado em The Leftovers, debaixo do incrível sol de Albuquerque, Novo México, casa do trabalho anterior de Vince Gilligan. Também pode recuar à Quinta Dimensão, mas a cores, e pôr-se de um dos lados (se possível, porque é tudo tão relativo e ao mesmo tempo tão preto-e-branco). Irritar-se ou não se irritar, eis a questão?Há um mistério, há “nomes” que ainda nem sequer foram oficialmente revelados e um convite evidente a ponderar se isto é uma distopia ou uma utopia. Mas isso aparece de surpresa, enquanto uma obstinada resistente vai ao supermercado ou um galifão se rodeia de luxo. Pluribus já tem segunda temporada garantida e só pede uma coisa: atenção neste mundo danificado, sobrepovoado, chateado, polarizado. Ou melhor, talvez também peça companhia (inserir aqui careta de dúvida receosa).










