Há monstros debaixo da cama
Há monstros debaixo da cama. Monstros que fazem barulho e são assustadores. Há monstros debaixo da cama capazes nos tirar o sono, de nos fazer encolher na borda da cama cheios de pavor, de nos provocar pesadelos, de nos paralisar debaixo dos lençóis ou, na pior das hipóteses, capazes de nos arrastar para a rua num sonambulismo desnorteado, fora da nossa consciência, para arremessarmos um golpe em qualquer vulto que se assemelhe a um monstro. É por isso é que os monstros podem ser tão assustadores. Mesmo quando sabemos que não são reais — sobretudo, aqueles que sabemos que não são reais. Porque crescem a partir da imaginação, e essa não obedece a fronteiras nem bordas.“Mesmo que sejam inventados, metem medo, os Monstros.”O F. olha-me do fundo dos seus olhos brancos e pretos enormes, bordados de pestanas como um napperon precioso daqueles que a minha avó tricotava, um rendilhado de olhos imaculados prontos a estrear. Não digo o nome dele, que teimo em pronunciar errado, porque seria atribuir-lhe uma identidade que para já, não pediu que fosse revelada, porque para esta história basta a primeira letra. Digo F. — a primeira letra do nome do rapaz, o nome que carrega o seu nascimento, a sua história, a sua origem, a sua família, e o seu destino, provavelmente. O F. não nasceu em Portugal e por isso os monstros e as bruxas que os seus sonhos lhe enviam, trazem outros perfumes e formas, brotam da floresta onde cresceu, tecida de superstições antigas, histórias de caçadores e presas. Fala-me desses monstros, os da Guiné-Conacri, num português suado, com o esforço de quem não ousa a falhar um verbo, não vão os monstros já tão amansados, voltar a subir pelos pés da cama.Do outro lado da mesa, a J. escuta em silêncio. Pronta para falar… Atenta. Voraz. Também os olhos castanhos avelã, profundos, brilham entre a pele escura e quente, como dois poços de terra onde brotam botânicas infinitas. Ela também conta. Dos monstros que teimam fazer-lhe cócegas nos pés, mas que ela não deixa que a assustem. Prega partidas aos monstros, enfia-lhes elásticos cor de rosa nas orelhas pontiagudas, e pinta-lhes as unhas e os lábios. Os monstros parecem palhaços e ela ri-se deles com os seus dentes brancos enormes. O humor furta-lhe o medo, reside numa coragem que não sei onde se cultiva, talvez o segredo esteja guardado nas canções de embalar de Cabo Verde que lhe cantava a mãe.O J. não percebe porque é que os miúdos o chateiam no autocarro ou na rua. A L. não tem quem a chateie porque é suficientemente invisível, minúscula e silenciosa para que alguém dê por ela. O G. diz que não tem medo de monstros, nem dos miúdos do autocarro porque corta caminhos por Lisboa montado na sua bicicleta, e desce como quem voa o jardim da Alameda em direção a casa. “Lá não há monstros”, diz. A F. não para quieta, é como se estivesse sempre a dançar, o corpo é tão esquivo que mesmo que quisessem, os monstros não seriam capazes de a apanhar — isso digo eu.E a L. desliza entre cada uma destas conversas com gestos tão graciosos que me pergunto se algum ilustrador de BD premiado seria capaz de inventar de raiz uma heroína angolana tão bonita como ela. Ela gostava de ser assistente social, e trabalhar com crianças vítimas de violência. O R. diz que quer ser psiquiatra, para perceber como funcionam os cérebros das pessoas. Julgo que ambos querem estudar diferentes tipos de monstros.Os jovens com quem trabalho semanalmente num projeto de criação artística ou nasceram fora de Portugal, ou são filhos de imigrantes, e os pais trouxeram-nos de paisagens cujas cores, sons e odores consigo apenas imaginar.Quando saio de manhã para estes encontros, passo na mercearia do Ryan para comprar fruta, e ele devolve-me os “Bons dias” num português cheio de tons e inflexões estrangeiras, e oferece-me coentros, um par de tangerinas, ou gengibre, que deposita com um sorriso no fundo do saco de fruta. Durante o “apagão” foi ele quem me tranquilizou sereno, e me entregou um garrafão de água que tinha guardado (porque além de ficar sem luz fiquei sem água) sem se preocupar que não tivesse dinheiro para lhe pagar. Lembro-me de sentir que a escuridão não seria tão assustadora enquanto pudesse contar com aquele vizinho vindo do Bangladeche.Depois vou treinar com a G., que é brasileira, converso com o W., que é libanês, bebo um café no P., que veio de Moçambique, e quando chego a casa e me deito, tenho um bocadinho menos receio que a luz se apague, porque sou acolhida nesta rede de línguas, experiências e sentidos quer foram a comunidade onde moro.Os monstros, todos sabemos, não existem. Não dormem debaixo da cama. Não esperam para nos morder os dedos dos pés durante o sono. Mas quando alguém consegue tocar com a ponta do dedo na frágil candeia dos nossos medos, apagam-se as luzes. Ficamos com a sensação de que podem aparecer para nos devorar. Se queremos ver um adulto a armar-se até aos dentes, é incitar-lhe o medo.Mas agora a grande máquina de produzir monstruosidades parece ter acelerado. Um bocadinho como o Grande Acelerador de Partículas (que fica debaixo do solo na fronteira entre a França e a Suíça) e onde os astrofísicos estudam entre outras coisas os buracos negros, para se simular um campo com uma gravidade tão potente que nem a própria luz lhe consegue escapar. Também o acelerador de Medos, Monstros e Fantasmagorias cresce nas telas, nos cartazes, nos discursos. No subsolo dos nossos afetos mais primitivos, atiçam-se medos, aceleram-se explicações, fabricam-se inimigos, inventam-se monstros. Levantam-se fronteiras entre nós e eles… “É um grande dia para os portugueses que têm sangue português nas veias” ouviu-se no Parlamento, a propósito da votação da Lei da Nacionalidade. Advoga-se que é preciso ser um verdadeiro “português”, mas suspeito que estejamos a começar a falar monstruês…Não sou astrofísica, nem tão pouco médica (quanto muito vou tentando caçar ou meter missangas nos monstros que me assombram, mas ainda assim gostaria de prescrever, aqueles que padecem destas crises de hematologia territorial, uma conversa com qualquer um destes miúdos com quem me encontro semanalmente. Recomendaria que ouvissem uma das histórias que contam sobre eles mesmos, sobre os seus pais, os irmãos, os seus sonhos, os seus desejos, as suas lutas. Ou então conversa nenhuma. Recomendaria apenas uns passes na bola com o L., que chuta como ninguém e nos faz inspirar entusiasmo em estado puro; ou escutar uma canção cantada pela voz da M., que parece trazer o coração à superfície e nos arrepia a superfície da pele também. Ou provar os bolinhos que traz a mãe da S., com uma receita do Nepal.Prescrevia um bocadinho da realidade que tanto temem, essa realidade colorida de diferenças que os assusta. A receita para conhecerem estes miúdos, que semanalmente me fazem sentir esperançosa diante de um mundo tão imenso, tão rico, tão humano. No fim do dia, quando espreitassem para debaixo da cama, talvez descobrissem que os monstros são só velhos brinquedos esquecidos, objetos desarrumados, histórias obsoletas que o medo inventou.A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990










