Portugal, um país a “endireitar-se”
A sociedade portuguesa está a endireitar-se. Não que antes estivesse torta, mas agora está sociológica e eleitoralmente a pender para a direita.Na última eleição de António Costa, quando o PS ganhou com maioria absoluta, o centro-esquerda e a esquerda (PS, CDU, BE e Livre) obtiveram mais de 2,8 milhões de votos. Este ano, o centro-direita, a direita e a direita radical populista ultrapassaram os 3,3 milhões (só PSD e Chega tiveram mais do que a esquerda em 2022).Na sequência das autárquicas de Outubro, o PSD “roubou” a Associação Nacional de Municípios Portugueses ao PS, doze anos depois; voltou a liderar a Associação Nacional de Freguesias; e já avançou para, pelo menos, um importante acordo de governação com o Chega, na Câmara de Sintra.Não é preciso recordar algumas leis que têm passado pela Assembleia da República (AR), ou até alguns episódios tóxicos, para confirmar que o peso da direita, mas sobretudo o da direita radical populista, está a aumentar a passos largos.O PSD e o CDS já governaram o país em aliança durante muitos anos sem que alguma vez tivéssemos tido um outdoor em frente do Parlamento a dizer: “Isto não é o Bangladesh.” A situação do país mudou, a imigração aumentou, mas “isto” só acontece porque a maioria sociológica, a oposição e os seus limites também mudaram.Nesta sexta-feira, a Comissão Nacional de Eleições (CNE) pronunciou-se sobre os cartazes da vergonha. “Não se encontrou ilícito eleitoral onde a CNE pudesse intervir”, explicou a entidade. Uma vitória para o candidato presidencial André Ventura? Não totalmente. A comissão acrescentou que “não descarta poder haver outro tipo de ilícitos, mas nesse caso o órgão competente é o Ministério Público (MP) e, se assim entender, os tribunais”, razão pela qual vai continuar a enviar as queixas recebidas ao MP.Neste momento, o Chega debate-se com várias questões, incluindo os cartazes a caminho do MP, o pedido do Livre para que o deputado Filipe Melo seja afastado da mesa da AR e a queixa do advogado Garcia Pereira à justiça (com a concordância de uma ex-fundadora do partido) para que sejam accionados mecanismos legais que levem à extinção “de um partido neofascista como o Chega”.Quase 1,5 milhões de votos empoderaram André Ventura em 2025 ao dar-lhe um grupo parlamentar com 60 deputados — o que é um feito para um partido com seis anos. O que o Chega escolheu fazer com este poder no primeiro meio ano de mandato está à vista de todos. Com ou sem queixas.










