CIÊNCIA

“Hiraeth” marca 75 anos do ACNUR com uma viagem sonora pelo exílio

A Fundação Portugal com ACNUR assinala os 75 anos da Agência da ONU para os Refugiados com “Hiraeth”, uma instalação sonora concebida pelo colectivo ADVERSA que convida o público a ouvir – e a sentir – o que é ser forçado a fugir. A experiência, apresentada, nos dias 5 e 6 de Novembro, no âmbito da Semana da Responsabilidade Social, cruza arte e humanidade num espaço público pouco habitual: o Time Out Market transformado em refúgio simbólico.“Hiraeth”, palavra galesa que evoca uma saudade impossível de traduzir, é o ponto de partida de uma narrativa dividida em quatro testemunhos reais. A instalação conduz o visitante por sons de explosões, sirenes, tiros, gritos e silêncios, evocando a perda de Hassan, vendedor do Sudão; Oleh, médico ucraniano; Noora, menina síria; e Zin, operária têxtil na Birmânia. São histórias que se repetem em geografias distintas, unidas pela mesma onda de destruição e deslocamento.Cada faixa sonora intercala ruídos de guerra e fragmentos de vida quotidiana com uma trilha melancólica que sublinha o desamparo. O som imita o mergulho e a emersão, como se o ouvinte estivesse submerso na memória dos que partiram. Apesar da intenção imersiva, o formato linear acaba por uniformizar as emoções. A repetição sonora e a presença musical constante criam empatia, mas por vezes diluem a singularidade de cada voz.Dar voz, sem explorar a dorPara António Bernardes de Sá e Tiago Bastos Nunes, da ADVERSA, “Hiraeth” não pretende ilustrar a dor, mas provocar reflexão. “A experiência nasce de um projecto que não recapitula as décadas do ACNUR, mas olha para as causas que justificam a sua existência”, explicam ao PÚBLICO. O som, dizem, permite “transitar do quotidiano para o pesadelo”, sem recorrer à imagem. “A peça torna-se pessoal, sem ser excessiva; gráfica, mas sensível. Desrespeitar esta situação seria desfigurá-la”, reflectem.Os artistas revelaram que “Hiraeth” é “o primeiro momento de uma jornada de três partes” que compõe o ciclo ACNUR75. A trilogia continuará em 2026 com “Rubicon”, uma instalação audiovisual centrada na travessia marítima dos refugiados. “Se ‘Hiraeth’ fala do indivíduo, ‘Rubicon’ fala do colectivo. Passamos dos auscultadores às colunas, do som à imagem, do eu ao nós”, explicam os autores.O som, para os artistas, tem a capacidade de alargar o “campo real” e “abrir um universo metafísico”, para uma linguagem de empatia. “Por ser invisível, abre espaço à imaginação. Traduzimos o trauma sem o ilustrar literalmente.” A decisão de trabalhar sem imagens visuais foi também uma questão ética: “Foi importante para nós preservar a dignidade destas pessoas”.Para Joana Feliciano, responsável de comunicação da Portugal com ACNUR, a prioridade é “humanizar sem explorar”. “Foi essencial garantir que as histórias não se tornassem caricaturas da dor”, afirma. O equilíbrio entre empatia e dignidade foi um dos eixos do projecto. “Estas pessoas estão numa situação de fragilidade, mas não são a sua fragilidade”, declarou Feliciano, relembrando, também, que “o objectivo é dignificar a sua existência, não reduzi-las à condição de vítima”.Ao trazer a experiência para o Time Out Market, a Fundação quis aproximar o público de uma realidade distante. “O sector privado também é composto de pessoas e tem maior capacidade até de receita”, diz, relembrando que o sector privado tem capacidade de “ter um impacto mais tangível e rápido na mudança destas circunstâncias”. A exposição insere-se na celebração dos 75 anos do ACNUR, num momento em que as crises são mais longas e os recursos mais escassos. “Há emergências subfinanciadas e isso significa vidas perdidas”, alerta Feliciano.O ciclo ACNUR75 prossegue com novas experiências artísticas até 2026. Mas a ambição maior vai além da arte, como conclui Feliciano: “Queremos que as pessoas saiam mais informadas, sensibilizadas e conscientes de que aquilo que é global pode, um dia, ser local. Todos podemos ser forçados a fugir”.Texto editado por Ivo Neto

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.