Clima quente adiciona “combustível” a tufões como o <em>Kalmaegi</em>, que causou destruição no Sudeste Asiático
O tufão Kalmaegi está a provocar grande destruição no Sudeste Asiático. As autoridades confirmam pelo menos 193 mortos — 188 nas Filipinas e cinco no Vietname —, além de milhares de desalojados e extensos prejuízos materiais. O fenómeno extremo coincide com a Cimeira do Clima das Nações Unidas (COP30), no Brasil, com os cientistas a alertarem, em declarações recentes à Reuters, para o facto de estes fenómenos extremos poderem tornar-se mais frequentes e intensos com o aumento da temperatura média global.O Kalmaegi atingiu a zona costeira do centro do Vietname na noite de quinta-feira, com rajadas de vento que chegaram aos 149 quilómetros por hora. A agência de gestão de catástrofes local registou sete feridos e danos em cerca de 2800 habitações, enquanto a empresa estatal de electricidade informou que 1,6 milhões de clientes ficaram sem energia. Na manhã desta sexta-feira, o serviço já tinha sido restabelecido para um terço dos afectados no dia anterior, acrescentou a empresa.O Sudeste Asiático estava ainda a recuperar-se de uma semana de inundações e chuvas recorde, que provocaram pelo menos 47 mortos e submergiram vários locais históricos classificados como Património Mundial da UNESCO.
Pessoas circulam em Hoi An, Vietname, após cheias que provocaram várias mortes
Thinh Nguyen / Reuters
O governo vietnamita mobilizou 268 mil soldados para operações de busca e salvamento. As autoridades também emitiram alertas para possíveis inundações que poderiam afectar o Planalto Central, uma das principais regiões produtoras de café do país.Na quarta-feira, o Presidente das Filipinas, Ferdinand Marcos Jr., declarou o estado de emergência no país, após o tufão Kalmaegi ter provocado pelo menos 188 mortos e 135 desaparecidos, naquele que é considerado o pior desastre a atingir o país este ano.A autoridade de aviação civil das Filipinas teve ainda de pôr todos os centros regionais e operações aeroportuárias em estado de alerta elevado, em preparação para a chegada da Fung-wong, para já classificada como tempestade tropical, mas que, dizem as previsões, se deverá intensificar e transformar-se num supertufão antes de atingir o país na noite de domingo ou na madrugada de segunda-feira.
Clima quente intensifica tufõesA trajectória de destruição de Kalmaegi coincide com a COP30, que reúne no estado brasileiro do Pará representantes de quase 200 países entre 10 e 21 de Novembro. Os investigadores afirmam que o facto de os líderes mundiais não conseguirem controlar as emissões de gases com efeito de estufa tem conduzido a tempestades cada vez mais violentas.O ano de 2025 deverá ser o segundo ou terceiro mais quente de que há registo, anunciou nesta quinta-feira a Organização Meteorológica Mundial (OMM). Aliás, os últimos 11 anos (2015-2025) são os mais quentes desde que se fazem medições, e a temperatura média global tem subido praticamente todos os anos neste período.“As temperaturas da superfície do mar no Pacífico Norte ocidental e no mar da China Meridional são ambas excepcionalmente quentes”, disse Ben Clarke, investigador de condições meteorológicas extremas no Instituto Grantham de Londres sobre Alterações Climáticas e Ambiente. “Kalmaegi será mais forte e mais húmido devido a estas temperaturas elevadas, e esta tendência nas temperaturas da superfície do mar está extremamente claramente ligada ao aquecimento global causado pela actividade humana.”Águas quentes são “combustível” de ciclonesEmbora não seja fácil atribuir um único fenómeno meteorológico às alterações climáticas, os cientistas afirmam que, em princípio, as temperaturas mais elevadas da superfície do mar aceleram o processo de evaporação e colocam mais “combustível” nos ciclones tropicais.Esta aceleração do aquecimento dos oceanos está directamente relacionada com o desequilíbrio energético crescente do planeta. A Terra recebe energia do Sol e reflecte parte dela. No entanto, o aumento das concentrações de gases com efeito de estufa faz com que parte da energia que era reflectida fique retida na atmosfera. E, quanto mais gases forem libertados, maior será a quantidade de energia retida, o que se traduz num aquecimento progressivo do oceano e da camada de ar à superfície.“As alterações climáticas aumentam a intensidade dos tufões principalmente através do aquecimento da temperatura da superfície do oceano e do aumento do teor de humidade atmosférica”, afirmou Gianmarco Mengaldo, investigador da Universidade Nacional de Singapura, citado pela Reuters. “Embora isto não implique que todos os tufões se tornem mais fortes, a probabilidade de tempestades poderosas exibirem maior intensidade, com precipitação mais intensa e ventos mais fortes, aumenta num clima mais quente”, acrescentou.
Guarda Costeira realiza operações de limpeza nas áreas afectadas pelo tufão Kalmaegi na cidade de Talisay, província de Cebu, Filipinas
COAST GUARD DISTRICT CENTRAL VIS HANDOUT / EPA
Embora os dados não indiquem que as tempestades tropicais estejam a tornar-se mais frequentes, o número de tempestades intensas aumentou, disse Mengaldo, co-autor de um estudo sobre o papel das alterações climáticas no tufão Ragasa, em Setembro.“O número total de tufões que ocorrem todos os anos não registou um aumento claro a longo prazo”, afirmou. “No entanto, a frequência dos eventos mais intensos e dos episódios de intensificação rápida aumentou, provavelmente devido ao aquecimento do oceano e a uma maior instabilidade atmosférica associada às alterações climáticas.”O furacão Melissa, que deixou um rasto de destruição nas Caraíbas no final de Outubro, foi intensificado de forma significativa pelas alterações climáticas provocadas pela actividade humana. A conclusão é de um estudo do grupo World Weather Attribution, que analisou os impactos da tempestade sobretudo na Jamaica e no leste de Cuba, onde milhões de pessoas foram expostas a fortes ventos e chuvas torrenciais.No ano passado, as Filipinas foram atingidas por seis tufões mortais ao longo de um mês e, numa ocorrência rara em Novembro, assistiram ao desenvolvimento simultâneo de quatro ciclones tropicais, o que sugere que as tempestades podem estar a ocorrer em períodos de tempo mais curtos.“Mesmo que o número total de ciclones não aumente drasticamente todos os anos, a sua proximidade sazonal e o potencial de impacto podem aumentar”, disse Drubajyoti Samanta, um cientista climático da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura, também citado pela Reuters. “Kalmaegi é um exemplo claro desse padrão de risco emergente”, acrescentou.
Tempestades consecutivasEmbora o tufão Kalmaegi não seja, tecnicamente, a tempestade mais poderosa a atingir o Sudeste Asiático este ano, veio aumentar o impacto acumulado de meses de condições meteorológicas extremas na região, disse à agência Reuters Feng Xiangbo, um investigador de tempestades tropicais da Universidade Reading, no Reino Unido. “As tempestades consecutivas podem causar mais danos do que a soma das tempestades individuais”, afirmou.“Isto porque os solos já estão saturados, os rios estão cheios e as infra-estruturas estão enfraquecidas. Nesta altura crítica, mesmo uma tempestade fraca que chegue pode funcionar como um ponto de viragem para danos catastróficos.” Um estudo divulgado pelo movimento internacional Save Soil, no início deste ano, indicou que um terço dos solos do planeta está “moderadamente a altamente degradado”.Tanto Feng como Mengaldo alertaram também para o facto de mais regiões poderem estar em risco à medida que as tempestades se formam em novas áreas, seguem trajectórias diferentes e se tornam mais intensas.“Os nossos estudos recentes mostraram que as regiões costeiras afectadas por tempestades tropicais estão a expandir-se significativamente, devido à crescente pegada de tempestades e ondas oceânicas”, disse Feng. “Isto, juntamente com a subida média do nível do mar, representa uma grave ameaça para as zonas baixas, particularmente nas Filipinas e ao longo das plataformas costeiras pouco profundas do Vietname.”No ano passado, a taxa média de subida do nível global do mar foi de 0,59 centímetros, superior à taxa esperada de 0,43 centímetros por ano, informou a NASA, a agência espacial norte-americana, num comunicado de imprensa.










