O futuro não cabe em promessas
Três décadas de promessas e falsas soluções. Quarenta anos de ação e resistência. O que aprendemos com as COP — e o que ainda não quisemos mudar.Em 1985 nascia a Quercus. Em 1995, a primeira Conferência das Partes. Quarenta anos de uma associação ambiental e trinta de uma tentativa global de travar o aquecimento do planeta. Duas histórias que se cruzam, feitas de esperança, de contradições e de persistência. E de um mesmo dilema: como mudar o rumo de um sistema que insiste em crescer à custa de um planeta que já não aguenta.A Quercus nasceu num país que ainda não sabia falar de clima. Falava-se de florestas, de rios, de poluição industrial — mas o aquecimento global era uma abstração. Os primeiros ativistas traziam relatórios manuscritos, máquinas fotográficas e uma ideia simples: proteger o que é de todos. Na altura, o mundo ainda não tinha medido a febre da Terra.Dez anos depois, em Berlim, as Nações Unidas reuniam-se para a primeira COP. Era o início de uma longa conversa entre Estados, cientistas e diplomatas sobre o futuro comum. Desde então, tivemos trinta cimeiras, mil promessas e uma certeza que cresce: o planeta não espera.O Protocolo de Quioto, em 1997, foi o primeiro passo; o Acordo de Paris, em 2015, trouxe esperança global; o Fundo de Perdas e Danos, em 2022, reconheceu a dívida histórica dos países ricos. Mas as emissões continuam a subir. O aquecimento já chegou a 1,2°C, a concentração de CO₂ ultrapassou 420 ppm e as metas repetem-se como mantras. Um vocabulário de neutralidades e compensações que soa bem no palco — mas raramente toca o chão onde as pessoas vivem.Quarenta anos depois da fundação da Quercus e trinta anos depois da primeira Conferência das Partes, em 1995, chegamos a Belém, no coração da Amazónia, para mais uma cimeira sobre o clima. Três décadas de negociações, promessas, avanços e retrocessos. Três décadas de tentativas para alinhar um sistema económico alicerçado no crescimento com os limites de um planeta — e de enfrentar o maior desafio coletivo da humanidade: travar o aquecimento global.Enquanto os líderes negociam vírgulas, o planeta arde. Florestas são derrubadas para parques solares. O petróleo continua a financiar “transições energéticas”. O carbono virou produto financeiro. E as COP tornaram-se espelhos da nossa contradição: todos dizem o que deve ser feito, mas poucos fazem o que dizem.Enquanto o sistema internacional hesita, a sociedade civil age. A Quercus, nascida em 1985, cresceu a denunciar crimes ambientais, a defender rios, florestas e comunidades. Foi, muitas vezes, a voz incómoda que expôs a distância entre discursos e realidade.Essa voz ecoa hoje na Cúpula dos Povos, o espaço onde se ouvem os que raramente têm lugar nas mesas de decisão. Povos originários, pequenos agricultores, pescadores, mulheres e jovens que vivem da terra e do mar — e que são as primeiras vítimas da crise climática. Conhecem as secas, as cheias, a perda de território. Representam a base que sustenta a vida, mas continuam sem poder de voto em pé de igualdade com quem decide o seu destino. A Cúpula dos Povos é o contraponto ético e humano da COP: lembra-nos que não há justiça climática sem justiça social, nem futuro possível sem escutar quem vive a crise todos os dias.O tempo dos relatórios passou. A ciência já falou, a Terra já avisou. Cada comunidade que resiste, cada jovem que exige ação, cada mulher que enfrenta a crise com as mãos na terra é prova de que a mudança é possível — mas só se for justa, urgente e real.E talvez seja aí que estas duas histórias — Quercus e COP — mais se separem. A Quercus é feita de cidadãos que vivem os efeitos diretos das políticas. As COP são feitas de governos que medem compromissos em parágrafos e vírgulas. A Quercus aprendeu que a mudança nasce de baixo para cima — nas escolas, nas aldeias, nas margens dos rios. As COP continuam, trinta anos depois, a tentar mudar o mundo de cima para baixo.Enquanto Belém discute metas e fundos, a Quercus repete o essencial: transparência, coerência e coragem política. Fim aos subsídios aos combustíveis fósseis. Taxas sobre carbono e grandes fortunas. Proteção das florestas autóctones. Apoio aos países e comunidades que vivem a crise no limite.Quarenta anos de ação cívica e trinta de diplomacia climática mostram este paradoxo: todos falam em futuro, mas poucos agem no presente.Belém pode ser só mais uma cimeira. Ou o momento de viragem. O planeta não negocia.Porque, no fim, a verdade continua a mesma: sem justiça climática, não há futuro possível.A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990










