Rastreio ao cancro do pulmão (o mais mortal do mundo) na ULS Gaia/Espinho
Sofia Pereira (nome fictício), 56 anos, fumadora há 40, deseja muito abandonar um hábito que a faz sentir “culpa”, a “perturba diariamente”, mas “ajuda-a nas situações difíceis”. Já Alberto Silva, de 62 anos, fumador desde os 13, “nunca pensou a sério no assunto”, porque “nunca se sentiu mal”.
Ambos de Gaia, não partilham os objetivos relacionados com o tabaco, mas coincidiram no “ok” pronto ao convite da ULSGE para integrar o rastreio ao cancro do pulmão que teve início em setembro, já rastreou 105 pessoas e pretende, ao longo de um ano, chegar a pelo menos 2.000.
São elegíveis — segundo os critérios da Direção-Geral da Saúde — pessoas entre os 55 e 74 anos de idade, fumadores ou ex-fumadores há menos de 10 anos, que tenham fumado pelo menos um maço de tabaco por dia durante 20 anos.
A ULSGE está a convocar, por fases, utentes que reúnam estas características, identificando-os com o auxílio das bases de dados nacionais e dos cuidados de saúde primários.
“Rezo para não ter nada, porque a culpa será ainda maior. Sou daquele tipo de fumadoras que, de cada vez que pega num cigarro, martirizo-me. Não fumo descontraidamente. Já reduzi aos poucos. Cheguei a um cigarro por dia, estive assim alguns meses, até que aconteceu algo na minha vida e fui buscar mais tabaco. É uma bola de neve”, contava Sofia, enquanto falava com a Lusa, num dos dias de rastreio do cancro do pulmão organizado pela ULSGE.
Mesmo antes de entrar para o exame, aproveita para pedir informações sobre consultas de cessação tabágica porque: “Eu sozinha não consigo, tenho de admitir isso”.
Já o pintor de automóveis conta que veio ao rastreio porque “mal não faz”, sabe que “é melhor prevenir do que remediar” e viu que cumpria os critérios todos do formulário que recebeu por ‘sms’, mas “para já não pensa em mais nada”, quer “viver um dia de cada vez”.
“Entre 60% a 80% dos casos de cancro de pulmão são detetados na fase mais avançada, quando já existem metástases no corpo. Quando isso acontece, mesmo com todos os tratamentos inovadores, a taxa de sobrevivência, na maior parte dos casos, aos cinco anos, é cerca de 5%. Quando estas pessoas são detetadas em fase precoce, quando os nódulos são pequenos, localizados ao pulmão, a taxa de sobrevivência a 20 anos é de 80%”, explica à Lusa a diretora do Serviço de Pneumologia da ULSGE, Margarida Dias.
Simplificando: 80% destas pessoas, ao fim de 20 anos, estão vivas e provavelmente vão morrer por outro motivo qualquer.
“O rastreio do cancro do pulmão evita 25% da mortalidade”, resume a médica de pneumologia, contando que, antes de programas como o das características deste, a forma mais comum para detetar cancro do pulmão em fase precoce acontecia quando os pacientes chegavam aos hospitais vítimas de um acidente de viação ou para tratar uma pneumonia, por exemplo.
A Comissão Europeia recomendou, em 2022, aos seus Estados-Membros que iniciassem projetos-piloto de rastreio do cancro do pulmão associados a programas de cessação tabágica. A Croácia, que foi o primeiro país europeu a fazer o rastreio, já o tinha implementado dois anos antes.
Entretanto já decorrem projetos na Polónia, República Checa, Países Baixos, França, Irlanda e Hungria, pelo menos. Em Portugal o tema está em cima da mesa há várias legislaturas, discutindo-se, atualmente a metodologia a adotar.
Considera-se que o teste mais eficaz para detetar o cancro do pulmão numa fase precoce é uma tomografia computadorizada torácica (TAC) de baixa dose (TAC normal com menos dose de radiação).
Posteriormente, há necessidade de articulação com o Serviço Nacional de Saúde para acesso ao tratamento de todos os achados no exame.
“Não temos uma fórmula mágica, mas acho que os astros se alinharam e permitiram-nos avançar com este programa”, indica Margarida Dias, referindo-se à disponibilidade dos recursos materiais e humanos e, até a motivações pessoais, que levaram a que esta instituição de saúde tivesse decidido arrancar.
Não sendo um projeto-piloto, e dependendo, naturalmente, dessa disponibilidade de recursos, alargar o programa para além dos 2.000 estipulados não é para já um objetivo. Mas a ULSGE até teria “clientes”.
“O ‘feedback’ que temos tido é muito bom. Inclusivamente utentes de fora já ligaram para cá a pedir para fazer o rastreio. Pessoas que já fumam há muitos anos e vivem com aquele medo de um dia vir a desenvolver um cancro do pulmão”, descreve a coordenadora da Unidade Funcional de Radiologia de Diagnóstico, Inês Marques.
Salientando que esta TAC é um exame sem contraste, indolor e rápido, a coordenadora lembra que o principal objetivo é detetar cancros do pulmão em estadios precoces, ou seja, quando ainda são pequenos e tratáveis, embora também se possam detetar outras patologias.
As doenças mais frequentemente encontradas para além do cancro do pulmão são calcificação das artérias coronárias, ou seja, quando as artérias do coração começam a ficar entupidas. Intervir precocemente diminui o risco de enfartes.
Outro achado também frequente é o enfisema, que é quando o pulmão começa a ficar com alguns buracos causados pelo tabaco, que fazem com que o oxigénio não chegue tão bem ao sangue.
“Um positivo significa que há alterações na TAC, lesões que têm algum grau de suspeição para cancro do pulmão. Não significa que sejam cancro do pulmão, significa que têm que ser estudadas para excluirmos esse diagnóstico. Os positivos são vistos muito rapidamente na consulta de pneumologia. Se a doença for confirmada, são orientados para a nossa unidade multidisciplinar de tumores torácicos onde vão fazer o tratamento. Se forem detetadas outras patologias, também avançamos com o encaminhamento”, descreve.
Por isso é que, tanto Margarida Dias como Inês Marques, descrevem este como um rastreio com “super poderes” e fazem um balanço “muito positivo” do programa.
“Sem este rastreio, há doenças que não se detetariam rapidamente. Há poucos sintomas ou às vezes os sintomas vão aparecendo de forma progressiva e o doente não os valoriza. Este rastreio diminui não só a mortalidade por cancro de pulmão, como tem um impacto muito grande a nível da doença cardiovascular. E, acima de tudo, a cessação tabágica beneficia não só os doentes com doença pulmonar, mas também com doença cardíaca”, referem.
Segundo o Global Cancer Observatory, o cancro do pulmão é o mais mortal no mundo, com mais de 1,8 milhões de mortes anuais.
O cancro do pulmão é responsável por cerca de 5.100 mortes anuais em Portugal, segundo dados divulgados recentemente pela Associação Portuguesa de Luta Contra o Cancro do Pulmão (Pulmonale).
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