SAÚDE E BEM ESTAR

Intoxicação por metanol: um risco para todos nós

Desde agosto, notificações relacionadas à suspeita de ingestão de bebida alcoólica contaminada por metanol têm chegado ao Ministério da Saúde. Inicialmente relatadas pelo estado de São Paulo, começaram a se espalhar rapidamente. Os boletins federais e notas recentes relatam centenas de notificações e registros em investigação, dezenas de casos confirmados por laboratório e algumas mortes confirmadas ou em investigação — os números variam conforme atualização dos estados.
A Organização Panamericana da Saúde (OPAS) emitiu alerta epidemiológico para a região das Américas sobre o risco de surtos de metanol e citou os casos recentes no Brasil. As autoridades brasileiras também passaram a distribuir um antídoto e a orientar estados e municípios para o enfrentamento desta situação.

Mas afinal, qual o risco do consumo de metanol para o ser humano? É preciso entender que o metanol em si tem toxicidade limitada: o principal problema são seus metabólitos. No fígado, e em menor grau na mucosa gástrica, a enzima álcool desidrogenase (ADH) converte metanol em formaldeído. Em seguida, outra enzima, a aldeído desidrogenase (ALDH), converte formaldeído em ácido fórmico (formato).
É justamente o ácido fórmico que causa a maior parte da toxidade: ele inibe a cadeia respiratória da mitocôndria (responsável pela respiração celular), causando falta de oxigenação nos tecidos e acidose metabólica, com grande toxicidade para o nervo óptico — resultando em visão borrada, “visão de neve” ou cegueira.
Embora a intoxicação possa acometer qualquer indivíduo, algumas pessoas têm maior risco de desenvolverem formas graves: pessoas que consomem bebidas destiladas de procedência desconhecida ou clandestinas (principal via de surtos), indivíduos com baixo peso corporal, pessoas com deficiência de folato (porque folato facilita a metabolização), pessoas que apresentam atraso no atendimento (sintomas podem aparecer tardiamente) e o atraso aumenta risco de dano irreversível, e em termos ocupacionais, exposição maciça por inalação ou contato também pode ser grave, mas surtos por ingestão são muito mais comuns.

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Como evitar intoxicações?

Não consumir bebidas destiladas ou alcoólicas de procedência desconhecida, sem rótulo, sem lacre ou sem selo fiscal
Evite “shots grátis” ou bebidas oferecidas em recipientes não lacrados
Se houver suspeita de bebida adulterada em um bar ou estabelecimento, não beba mais; avise a vigilância sanitária local e, se possível, guarde a garrafa/frasco (rótulo e lacre) para análise
Conheça os sinais iniciais que nem sempre são fáceis de distinguir de uma ressaca comum: sensação de embriaguez persistente, náuseas, vômitos, dor abdominal, tontura, dor de cabeça e sintomas visuais (borrar a visão, luzes em “neve”) podem surgir horas depois (tipicamente 6 a 72 horas). Procure atendimento médico imediato se houver suspeita
 Evite automedicação; não há “antiácido caseiro” que previna a toxicidade. Em suspeita grave, o tratamento específico deve ser feito em serviço de emergência, com antídotos específicos se indicados

O Ministério da Saúde brasileiro começou a distribuir lotes do antídoto (fomepizol) e orientou os serviços de saúde sobre manejo adequado dos casos e notificação.
Embora extremamente grave, esse não é um problema novo. Surtos por ingestão de metanol ocorrem há décadas e são tipicamente associados a bebidas adulteradas ou produção clandestina. Há relatos históricos em vários países: Índia, Irã, Peru, Laos, Rússia, entre outros, e mesmo o Brasil no passado.

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Em resumo, esse é um momento de cautela em que as autoridades precisam fortalecer o combate ao crime de adulteração de bebidas, que coloca em risco a saúde de todos nós.
*Renato de Ávila Kfouri é pediatra infectologista, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e membro do Grupo Consultivo Estratégico sobre Doenças Preveníveis por Vacinas da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS)

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