MUNDO

Crianças são as "vítimas da guerra" em Gaza. "Destruição incomparável"


Numa conferência de imprensa através de videoconferência, Sónia Silva frisou que as vidas destas crianças “vão mudar para sempre” devido “à violência e a um nível de sofrimento sem precedentes”.

“Vai haver um antes e um depois, e isto terá um impacto psicológico, sobretudo pelo trauma causado pelos bombardeamentos. Há 44 mil crianças que perderam pelo menos o pai ou a mãe, e isso tem de ser abordado. É fundamental a entrada maciça de ajuda e garantir serviços de educação, proteção e nutrição”, argumentou.
Para Sónia Silva, uma das principais preocupações é a “chegada do inverno”, embora tenha saudado o cessar-fogo alcançado entre Israel e o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas).
“O caminho é longo e o nível de destruição é incomparável com outras crises. É um território que sofreu um bloqueio significativo à entrada de ajuda, limitada à saúde, nutrição, alimentação e abrigo, mas temos muitos camiões à espera de entrar com equipamentos”, afirmou.
“Estou na Faixa há dois anos e cheguei um mês depois de o conflito rebentar. Agora, desde que foi declarado o cessar-fogo, sentimos também tristeza: o nível de destruição e de sofrimento não tem precedentes. Às vezes faltam-nos palavras para descrever a dor e o sofrimento das crianças em Gaza. Durante o conflito, morriam 28 crianças por dia. A Faixa registou um nível de destruição impressionante”, afirmou.
A UNICEF lamentou que o último hospital pediátrico que permanecia em funcionamento na Faixa tenha sido destruído: “Estivemos a trabalhar lá durante mais de 18 meses e apoiávamos o pessoal médico com equipamentos, ventiladores, fototerapia e sistemas de oxigénio.”
“Preocupa-nos os serviços básicos. A água e a nutrição são fundamentais, pois 80% dos serviços de saúde foram afetados e estamos a tentar realizar uma campanha de vacinação e nutrição. Em agosto foi declarada a fome na cidade de Gaza e mais de 200 mil crianças estão em risco de desnutrição. É essencial acelerar a prestação destes serviços”, explicou Sónia Silva.
A responsável reafirmou igualmente a importância de criar “estruturas de educação para que as crianças possam ter salas de aula temporárias, tentando minimizar os riscos que enfrentam”. 
“Atualmente temos cerca de uma centena dessas salas e também tendas de grandes dimensões que permitem que as crianças tenham acesso a educação perto de onde vivem neste momento. O que é surpreendente, e que não vi em mais lado nenhum, é a força e a resiliência dos habitantes de Gaza. Mesmo tendo todos perdido familiares ou tudo o que possuíam, continuam a seguir em frente”, sublinhou, lembrando ainda que “as crianças vivem mais no presente”.
A UNICEF continua a denunciar que a magnitude da destruição, as restrições de acesso e a insegurança em Gaza “dificultam o trabalho humanitário” e mantêm as famílias em situação de “extrema vulnerabilidade”, mesmo após o cessar-fogo, pelo que defende a importância da reunificação familiar.
Por seu lado, a especialista em educação da UNICEF, Jane Courtney, afirmou que o sistema educativo está “à beira do colapso”, com “97% das escolas danificadas ou destruídas e 92% a necessitar de reparação total”. 
“Muitas crianças refugiadas procuraram abrigo nas escolas. Mais de 600 mil crianças têm de regressar às aulas. Os pais estão dispostos a enviar os filhos para a escola apesar de estarem numa situação vulnerável, sem alimentos. Embora a UNICEF ofereça ensino, as crianças têm de frequentar as aulas por turnos”, lamentou Courtney.
Courtney referiu ainda que as crianças estão “ávidas por aprender, porque compreendem que isso é importante para o futuro” e “querem passar mais tempo na escola, mas não temos tempo suficiente”. “Querem coisas simples, como uma folha e um lápis, e neste momento isso está-lhes a ser negado. Precisam de materiais. Há crianças que escrevem até nas carteiras ou na areia, ao ar livre”, concluiu.
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