<em>Marquise</em>
Há um tipo de palavras que são como um acrescento na língua que se junta às coisas que nomeiam, elas próprios acrescentos a prometer algo que sabemos que não se vai cumprir, mas que preenche a imaginação colectiva e nos move na vida. Por exemplo, uma marquise a tentar tornar a varanda exterior em escritório ou prolongamento de sala, alguns metros quadrados mais como um elevador de felicidade social. Ou o parquet e o poliban, no lugar da tábua corrida e do banho amplo, todo um vocabulário de soluções para os problemas, uma ideia de solução com o seu quê de sintético e descaracterização, a trair o que se propõe alcançar. Mas não importa se assim se democratiza a satisfação do desejo.Só que desse fundo de democratização engenhosa do desejo, a estratificação baralha e torna a dar na forma luxury do anexo, nas soluções gourmet guardadas na secção mais reservada dos catálogos online. A versão marquise do caviar pode ser bem mais cara do que caviar. Ou não tivesse o português mais conhecido do mundo mandado construir há alguns anos, no cimo de um prédio de luxo, com assinatura de arquitecto, uma bela marquise.Nem sequer importa muito as coisas, sejam caviar ou churrasco, ou a estética kitsch em contraponto com a erudita. As fontes do gosto marquise não estão nas coisas nem no conhecimento delas, mas no acrescento que lhes acontece. O fetiche do anexo pode ser a imagem instagramável, que é a marquise adequada às redes sociais, como pode ser a etiqueta de preço não descolada, ou da marca que está simplesmente pelo preço, que são marquises do valor das coisas. Em tudo isto importa muito mais o acesso do que aquilo a que se acede.A marquise foi o fenómeno dos apartamentos dos anos 80. E as rotundas foram as marquises das ruas nos anos 90. Os pacotes de férias, de viagem, de experiências “tudo incluído”, são marquises de cada uma destas coisas. E as subscrições de canais de séries e de ginásios são marquises do tempo. É difícil não dar com a lógica da marquise onde quer que se vá. Como ir a um restaurante e não conseguir um canto sem música.As palavras marquise também são parte integrante do imaginário político. Por exemplo, a palavra inovação, a fingir o novo, sem a graça de quem finge. Como se a singularidade do novo pudesse ser substituída pela indústria da inovação. Até pode, mas não sem um sofrimento de alma. Ou a palavra empreendedorismo, a usurpar uma ideia de vida activa para impor um regime de competição pela criação de oportunidades de lucrar. Democratizar a oportunidade só a torna mais justa, não a torna melhor.









