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Acabou a esperança para o maçarico-de-bico-fino. Ave foi declarada extinta

Já quase não havia esperança e, em Novembro do ano passado, um grupo de especialistas tinha mesmo pedido que o maçarico-de-bico-fino (Numenius tenuirostris) fosse declarado extinto, por não haver qualquer evidência da sua existência há décadas. A confirmação chegou este mês, com a inclusão da ave na categoria “Extinta” da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).A actualização da Lista Vermelha foi divulgada no dia 10, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, onde termina esta quarta-feira o Congresso Mundial de Conservação da IUCN. A partir de agora, esta lista inclui 172.620 espécies, das quais 48.646 estão ameaçadas de extinção.As aves, como já vem sendo habitual, são do grupo que mais riscos enfrentam, com 61% das espécies a terem populações em declínio – a percentagem situava-se nos 44% em 2016. Há 1360 espécies de aves que viram o seu estatuto de conservação actualizado e, do total de 11.185 espécies de aves avaliadas, considera-se que 11,5% (1256) estão globalmente ameaçadas.Para essas pede-se uma intervenção rápida e coordenada, mas para o maçarico-de-bico-fino parece já não haver nada a fazer. É uma “perda devastadora”, como é descrito na página do Acordo para a Conservação das Aves Aquáticas Migratórias Áfrico-euroasiáticas (AEWA, na sigla em inglês), sobretudo porque os alertas para o declínio da espécie já se faziam ouvir há mais de um século, sem que fosse possível travá-lo.Plano de acção tardioO maçarico-de-bico-fino é apenas a terceira espécie de ave que passa grande parte no Paleárctico Ocidental a ser declarada extinta desde 1500. As outras duas nidificavam em ilhas, o que as tornava mais vulneráveis – o arau-gigante (Pinguinus impennis), em 1844, e o ostraceiro-das-canárias (Haematopus meadewaldoi), cerca de 1940.No artigo publicado na revista Íbis, em Novembro do ano passado, no qual especialistas pediam que a ave fosse considerada extinta, já que havia 96% de probabilidades de ser essa a realidade, lembrava-se que desde 1912 que se alertava para o declínio desta limícola, admitindo-se a possibilidade de extinção pelo menos desde a década de 1940. Uma tragédia para uma ave que em tempos se espalhou por várias áreas do planeta, nidificando na Ásia Central e passando parte do seu tempo em vários países da Europa, Médio Oriente, na bacia do Mediterrâneo e na costa noroeste de África.O último registo aceite para o avistamento desta espécie ocorreu em Fevereiro de 1995, em Marrocos. No ano anterior a Lista Vermelha da IUCN tinha-o considerado pela primeira vez como “Criticamente Ameaçada”. Apesar dos alertas que se faziam há décadas, só em 1996 foi aprovado um plano de acção para a sua conservação, actualizado em 2002. Era tarde demais, como o desfecho agora conhecido o comprova.“Servir de lição”Para José Alves, especialista em limícolas do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da Universidade de Aveiro e editor associado da Íbis, a notícia não foi uma surpresa. “Já se estava à espera, na prática é a oficialização do que já se sabia. Mas até me engasgo, ao dizer que a espécie está declarada extinta”, admite.Para o investigador, o mais importante é que este caso “sirva de lição”, já que há muitas outras espécies – e várias delas limícolas – que estão a passar um processo de declínio que, se nada for feito, pode levar ao mesmo desfecho.“Neste caso demorou-se mais de 40 anos até a espécie ser declarada ameaçada e outros 16 até ser classificada como criticamente em perigo. Quando se começa a tentar avançar com acções para a salvar é tarde demais. Este atraso entre os dados apresentados pelos cientistas e as acções no terreno não pode acontecer. Esta extinção é uma chamada de atenção séria para a necessidade de encurtarmos estes tempos”, alerta José Alves.O desaparecimento do maçarico-de-bico-fino “marca a primeira extinção global conhecida de uma espécie de ave aquática migratória que estava presente de forma abrangente em várias partes do mundo, incluindo a Europa, Norte de África e Ásia Ocidental”, refere-se no artigo da AEWA a dar conta da decisão da IUCN.Tal como afirma José Alves, também aqui o apelo é para que este desfecho possa evitar que outros casos similares ocorram. “O anúncio de hoje [dia 10] acaba com a esperança de sobrevivência da espécie, depois de anos de buscas exaustivas por qualquer indivíduo remanescente. A perda devastadora sublinha a necessidade urgente e sustentada de esforços de conservação mais fortes para as aves migratórias e espécies migratórias em geral”, sublinha-se.Não é possível estabelecer uma causa específica para a extinção do maçarico-de-bico-fino, mas a caça excessiva (sobretudo até ao início do século XX) e a perda de habitat, posteriormente, aparecem como as hipóteses mais prováveis. A ave não conseguiu adaptar-se e sobreviver a estas mudanças. Aliás, a perda ou degradação de habitat, associada à desflorestação, aparecem como as principais causas para o declínio das várias espécies de aves do planeta.As espécies migratórias acabam por sofrer uma pressão extra, porque a sua vida depende de diferentes territórios em distintas partes do globo. Urgência na acção e coordenação entre Estados para garantir que todo o ciclo de vida destas aves é garantido, são os pontos-chave que José Alves considera essenciais para impedir mais extinções.“Este é um caso flagrante, de como a acção chegou tarde demais. O alerta tem de ter efeito assim que as espécies começam a subir no nível de ameaça [da Lista Vermelha]. É preciso entrar em acção muito antes do que o que está a ser feito. Ou os Estados tomam isto como uma coisa séria ou o que vai acontecer é perdermos mais espécies, porque os dados estão à nossa frente. Veja-se o caso da tarambola-cinzenta [Pluvialis squatarola] que no ano passado saltou uma categoria de classificação”, diz o investigador.A espécie passou da classificação Pouco Preocupante para Vulnerável, saltando o estatuto intermédio de Quase Ameaçada, justificado com o declínio populacional superior a 30%. José Alves insiste: “Além da urgência em agir, os Estados têm de entender que a conservação das espécies tem de ser coordenada. Porque uma ave pode ter a produtividade mais ou menos razoável num determinado local mas se o habitat para onde vai depois não está bem, há vários indivíduos que podem desaparecer de um momento para o outro.”Apostar na monitorizaçãoPor cá, e conforme é referido na página Aves de Portugal, o maçarico-de-bico-fino foi identificado em 1817, existindo um único registo confirmado da sua presença, no Ribatejo, em meados do século XIX. A ave foi caçada e estava conservada no antigo museu da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que ardeu em 1978, tendo-se perdido o seu valioso espólio, incluindo este exemplar.Gonçalo Elias, autor desta página, sintetizava no podcast A Viagem do Maçarico, dedicado a esta espécie, o drama que levou à extinção do maçarico-de-bico-fino: “O problema deixou de ser a falta de informação para passar a ser a falta de acção.”

Ao PÚBLICO admite que a rapidez com que a IUCN oficializou a extinção – há uma regra mais ou menos implícita de que tal só deve ser feito 70 anos após o último registo, e no caso desta espécie só passaram 30 anos – terá que ver com o facto de, hoje, haver muito mais meios e pessoas atentas e a contribuir com registos sobre as diferentes espécies de aves nas mais diferentes partes do globo.Para Gonçalo Elias, evitar que outras extinções aconteçam tem de passar também por uma monitorização intensa das espécies que apresentam riscos de declínio e, mais ainda, sinais de não se estarem a conseguir adaptar às alterações que os humanos vão introduzindo na paisagem e nos seus habitats.“Acho que é muito importante apostar-se na monitorização das aves selvagens, porque há espécies que conseguem adaptar-se às mudanças e outras não. As transformações não são igualmente adversas para todas as espécies e as que não se conseguem adaptar são as que precisam da nossa ajuda. Mas para sabermos quais são, não se pode descurar a monitorização, os números têm de ser constantemente revistos e acompanhados para que, em tempo útil, se possam tomar as melhores decisões para reverter esse declínio”, diz Gonçalo Elias.Isto é, desde que a informação seja seguida de acção, o que, como se viu no caso do maçarico-de-bico-fino e de muitas outras espécies que têm visto a sua classificação na IUCN ser constantemente actualizada para pior, não está a acontecer em muitas situações.Se não for assim, não restará a Gonçalo Elias outra opção senão a que tomou esta quinta-feira, quando teve de actualizar a página Aves de Portugal no espaço dedicado ao maçarico-de-bino-fino, para incluir a informação: “Em Outubro de 2025, a IUCN atribuiu formalmente a esta espécie a categoria de Extinta.”

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